Socorro Super Nanny

Ana Paes
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"Coração maior, gosta das manhãs. Irrita-se com a incompetência, mas dedica a sua vida a acabar com ela. Tira, dos sorrisos das crianças, a força que a faz levar tudo à frente. Correcta, honesta, franca, de sorriso fácil. Quem a conquista, jamais a perderá." - SUSANA DINIZ

Ana Paes é educadora de infância e professora de música.
Escreve também aqui: Os filhos dos outros
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Quanto ao novo programa da Sic “Super Nanny” poderia tecer aqui inúmeras opiniões. Poderia.

Poderia abordar a invasão de privacidade à criança Margarida. Poderia. Mas teria igualmente que falar sobre as centenas de fotos de crianças que vemos expostas diariamente nas redes sociais. Crianças a tomar banho, crianças na praia, crianças na casa de banho, crianças a sorrir, a chorar. Crianças na escola, com amigos, com pais, sozinhas. Poderíamos todos opinar. Só que não.

Poderia ainda fazer referência ao visual de menina de biblioteca usado pela Nanny ou de como me arrepiou ver aqueles braços cruzados a assistir ao espetáculo entre  mãe e filha. Poderia. Só que não. Poderia falar dos abomináveis quadros de estímulo ou sobre os quadros de castigo usados pela Super Nanny. Falar dos “bonequinhos” no roupeiro ou ainda falar do “banquinho”. Banquinho? Sério? Será que é mesmo sozinha a falar com as paredes que a criança vai chegar a alguma conclusão? Poderia abordar algumas estratégias utilizadas. Poderia. Só que não.

O que me assusta mesmo é perceber o desespero dos pais e a hipocrisia de tantos outros.

Se, por um lado temos pais que estão completamente perdidos na educação dos seus filhos, por outro, temos todos aqueles que se acham perfeitos pedagogos e detentores de toda a verdade parental.

Os pais vivem tão preocupados em serem os pais perfeitos que se esquecem de ser simplesmente pais.

Vivem tão preocupados em serem os grandes amiguinhos dos seus filhos que já nem sabem qual o seu verdadeiro papel na educação das crianças.

Um pai e uma mãe são muito mais do que um amigo e por isso mesmo é com eles que um filho conta para estabelecer limites, impor regras, para repreender e criticar. Também para mimar, amar, acarinhar, brincar, partilhar e ser o único porto de abrigo fiável, mas nunca para serem  os “melhores amiguinhos”.

E é nesta caminhada em ser um “pai moderno” que os pais acabam por se perder e desesperar por Super Nannys que os salvem.

Pelo caminho vão aos tropeções as muitas Margaridas que anseiam por encontrar uma mãe e um pai que queiram simplesmente ser pais.

Pelo caminho vão aos tropeções as outras Margaridas, filhas dos super-papás que sabem tudo e que se preocupam mais em criticar todos os outros do que olhar para dentro de casa.

E aqui andamos. Preocupados com uma Super Nanny quando, na minha opinião, o que deveria ser (também) alvo de preocupação era a realidade exposta naquele programa. Não nos iludamos, aquela é a realidade de muitas das nossas crianças e de muitos dos nossos pais. Não de todos. De muitos.

Pais que andam perdidos no caminho que consideraram ser o melhor e filhos que não encontram os pais no decorrer dessa caminhada.

Se poderia criticar o programa? Poderia. Poderia criticar algumas das estratégias? Claro que sim. Só que não. Não hoje.

Hoje fico-me pela indignação que sinto quando bato de frente com a hipocrisia. E interrogo-me constantemente até onde nos levará este caminho que escolhemos percorrer na educação das nossas crianças.


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"Coração maior, gosta das manhãs. Irrita-se com a incompetência, mas dedica a sua vida a acabar com ela. Tira, dos sorrisos das crianças, a força que a faz levar tudo à frente. Correcta, honesta, franca, de sorriso fácil. Quem a conquista, jamais a perderá." - SUSANA DINIZ Ana Paes é educadora de infância e professora de música. Escreve também aqui: Os filhos dos outros

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