Ser um Homem

Maria Pereira

Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos.
Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos.
Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se.
Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo?
Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias
de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração.
Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.
Maria Pereira

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Há ainda pouco tempo, na Primavera passada, descíamos em Vila Franca, pela Rua Miguel Bombarda, ali próxima do Museu de Arte Sacra, caminhando pelo passeio que fica entre os prédios e os belíssimos abrunheiros que, em boa vizinhança, convivem com os carros aí estacionados.
Nas árvores, os abrunhos já maduros, rosados, lindos e perfumados, faziam-me crescer água na boca.
Reparo então num pequeno grupo de garotos, de dez ou doze anos, uma adolescência a romper na partida da infância. Eram rapazitos modestos, a avaliar pelo aspecto, pela bicicleta reciclada, metade alumínio, outra metade em madeira tosca. Não seriam ciganos (gosto muito dos ciganitos), pois não eram morenos e tinham caracóis castanhos, claros, queimados do sol. Naquele momento eu reparava em tudo isto, mas o que me aliciava eram mesmo os abrunhos, ameixas doces, lá no alto das árvores, onde nem eu nem o meu companheiro conseguíamos chegar. Só os miúdos saltavam e trepavam regalando-se com toda aquela fruta, madura e gratuita.
Adoro estas ameixas, confessei em voz baixa, um tanto gulosa outro tanto triste, por não as conseguir colher. Mas um dos meninos ouviu e logo colheu três belos frutos, desceu e estendeu-mos na sua mãozita. Recebi-os, grata, trémula, beijando os seus cabelos, sem ser capaz de dizer mais que um obrigada, os olhos marejados de lágrimas doces. A cabeça em turbilhão, mostrava-me como aquele garoto, quase maltrapilho, tinha agido como um Homem. Simpático, solidário, amoroso, com uma gota de galanteria e ternura. Como desejei, como desejo, que a vida lhe permita ser sempre assim alguém que, cada dia, nos momentos pequenos ou grandes, mereça o nome de Homem!

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Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos. Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos. Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se. Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo? Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração. Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.

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