N2: Na estrada como na vida
A estrada da vida pode levar-nos por caminhos sinuosos. Andamos às curvas para chegar a lugares que muitas vezes estão logo ali, à nossa frente. Conduzir por estes caminhos nem sempre é fácil. Metemo-nos por becos e ruelas que não vão dar a lado nenhum. Com sorte, encontramos uma saída de emergência; sem sorte, vemo-nos em becos sem saída. No fundo, o que conta é o caminho, acreditando que vamos chegar a algum lugar.
Há muito que queríamos esta viagem. Na impossibilidade de fazermos a Route 66, por motivos vários, escolhemos a Nacional 2 (N2). Esta estrada atravessa Portugal de norte a sul. Começa em Chaves e termina em Faro. Poderíamos fazê-la de norte para sul ou ao contrário. Na verdade, poderíamos fazê-la como quiséssemos. Começar pelo meio, pelo princípio ou pelo fim. Decidimos seguir do quilometro zero para o setecentos e trinta e oito e percorrê-la na cadência que nos fosse apetecendo.
O desejo de viajar é comum à maioria dos mortais. Gostamos de mudar de ares, de ver lugares diferentes, de conhecer pessoas novas e com modos de vida diversos. Cada um viaja como gosta e sabe. Há quem vá para fazer turismo, vendo museus, monumentos ou paisagens; há quem vá para experimentar coisas novas; e há quem vá para ir apenas.
Já fizemos um pouco disso tudo. É certo que ainda não viajámos tudo tanto quanto gostaríamos, mas já fomos a alguns lugares. Porém, andamos um pouco cansados do turismo puro e duro e andava a apetecer-nos fazer esta estrada apenas pelo caminho. Talvez numa tentativa de a atravessar como se viajássemos por nós adentro dos pés à cabeça ou da cabeça aos pés. Palmilhar a terra em busca de um qualquer céu. Não o céu dos deuses, mas um céu interior, ou qualquer outro que poderíamos descobrir, entretanto. E seguimos assim, na estrada como na vida.
- Chaves – Vila Real
- Vila Real – Viseu
- Viseu – Pedrógão Grande
- Pedrógão Grande – Ferreira do Alentejo
- Ferreira do Alentejo – Faro
Chaves – Vila Real
Com Chaves como ponto de partida, sem saber onde iriamos parar, porque poderíamos ficar com o caminho a meio, levávamos nos bolsos as chaves que poderíamos ter de abrir em nós.
Aqui, o rio Tâmega é rei. Atravessa a terra, dando-nos as margens para nos despertar os sentidos. Há até uma chamada “rota dos sentidos” que nos convida a ouvir sons, sentir cheiros, ver paisagens e abraçar as árvores que as envolvem.
Neste primeiro lugar, demos longos passeios junto ao rio, inspirando o ambiente. Falámos de aspirações e desejos, do futuro e do passado. Comemos pastéis de Chaves depois de uma longa conversa com a senhora do posto de turismo. Fomos lá, porque não sabíamos como iria ser a viagem, pois ainda não estava definida nas nossas cabeças (se é que alguma vez chegou a estar).
A pessoa que nos atendeu era daquelas que não são afáveis às primeiras. Talvez por cansaço da profissão, começou por nos debitar banalidades turísticas que não nos satisfizeram. Puxámos por ela, queríamos mais, e saímos de lá com sugestões de sítios para comer bem e barato e com saborosas conversas sobre comida, à bom português, que nos abriram o apetite.
O local para os pastéis ficava perto: uma casinha jeitosa que perfumava a rua com o cheiro dos salgados acabados de fazer. O olfacto e o paladar agradeceram.
No dia seguinte, deixámos a cidade para trás com as rodas do carro bem coladas ao asfalto da N2, na expectactiva do que iríamos encontrar pela frente.
A Estrada Nacional 2 começa por ser igual a qualquer outra: alcatrão, alguns remendos, traço contínuo ou intermitente, montanhas de um lado e casas do outro. A via é incrivelmente cheia de silêncios ou de muito pouco ruído. Um carro aqui ou ali cruza-se connosco, ouvem-se os pássaros nas árvores, os insectos e as folhas a baterem umas nas outras com o vento. Há muitos santos à beira da estrada como que a abençoá-la. Há vestígios de outros tempos: casas de pedra, paragens de autocarro que parecem ter sido construídas antes mesmo de se terem inventado os autocarros e pessoas que vão surgindo pelo caminho.







Aparece-nos Vidago no percurso, que nos leva às águas que nos passam pelo estreito como que a lavar-nos as almas e a refrescar-nos os corpos. Estas são gaseificadas naturalmente. Vêm das Pedras Salgadas, como nos conta um “senhor Campilho”, acrescentando que para terem um litro com a quantidade de gás desejada precisam de dois: retiram o gás dos dois litros, isolam-no e depois voltam a adicioná-lo a apenas um. Técnicas modernas, parecem-nos, a fazerem-se à medida das mais novas exigências.
O Campilho antigo, ao lado do recente, enche-nos as vistas. A construção em ruínas, onde se engarrafavam as águas noutros tempos, mostra aquilo que a fábrica foi. Dizem que a vão restaurar para que se possa visitar melhor. Talvez para aproveitar o turismo da rota das águas ou de outras rotas de que, agora, a vida se faz. Podemos inspeccionar o local, ver a maquinaria ferrugenta e o edifício que nos reporta para tempos idos. Saímos de lá com uma certa nostalgia da época em que não havia tecnologia que pensasse por nós.
Bebida a água, Vila Real é o local de pernoita. Arranjamos um bangalô feito de contraplacado, no Parque de Campismo. O sítio não é chique, mas também não é isso que procuramos. Temos árvores à volta, uma cama e casa-de-banho. No fundo, temos tudo o que precisamos para continuar a viagem.
Jantamos num restaurante que outrora fora uma casa. Parece que vamos a casa de amigos, quando subimos as escadas de madeira e somos recebidos com um sorriso, enquanto nos encaminham para a divisão do repasto. Já na sala de jantar, dividimos pratos que regamos com vinho caseiro. Trocamos umas palavras com o pessoal do restaurante e acabamos o dia com um passeio pela cidade com nome de vila. Possivelmente terá nobres encantos, mas o lado cosmopolita não nos motiva a ficar e devolve-nos à estrada.
Vila Real – Viseu
A N2 mergulha-nos, agora, em montes e vales e o percurso segue entre montanhas decoradas por vinhas. Deixamos para trás as rotas da água e passamos à do vinho. Já Cristo o tinha como o seu sangue e nós santificamo-lo como o néctar dos Deuses. Até o cultivo da uva o sacraliza presenteando quem passa com a beleza das vinhas que ziguezagueiam até ao horizonte, desenhando labirintos até onde os olhos alcançam.
Continuamos a seguir os caminhos de Baco com Peso da Régua como próximo destino. Almoçamos junto ao Douro a ver turistas que o palmilham em cruzeiros chiques. Vemo-los nós e o pescador que espera que o peixe pegue no anzol. Está de boné, sentado à sombra, cigarro nos lábios e tempo no regaço. O tempo dele é outro, que não o nosso.
Toda a estrada nos tem mostrado isso, que existe um outro tempo, mais demorado. O dos ciclistas que se cruzam connosco; da rapariga que respira elegância ao seguir de guarda-chuva a fazer-lhe sombra; ou do velhote que leva o balde de comida para os animais. Todos têm um tempo diferente. Parece maior, quase gigante. Apetece-nos segurá-lo dentro de nós e só o usar quando estritamente necessário.
Pousamos o Peso e vamos um pouco mais leves de pressas para Lamego. Aqui, demoramo-nos para lembrar vivências antigas. O exército cruza as ruas como se a cidade lhes pertencesse. Ela parece deles e da Nossa Senhora dos Remédios, lá no cimo, que zela por eles. Já nós enganamos a promessa e contornamos a Senhora. Não queremos subir escadas, por isso apanhamos a Santa de surpresa e espreitamos Lamego por cima do seu ombro. Não há milagres nem fé que valham tanto degrau à torreira do sol. Na descrença, fintamos a sorte e partimos para Castro Daire.





A viagem faz-se às curvas, como que a penitenciar-nos pela falta de fé, mas permite-nos um passeio de baloiço sobre as montanhas no intervalo. Lá em baixo o precipício. Balouçamo-nos com vigor, somos engolidos pelo abismo ou continuamos?
Continuamos. Não sem antes pararmos numa casa de chocolate que nos aparece pelo caminho. Petiscamos um quadradinho e licor da iguaria, bebemos um café e voltamos à estrada renovados, prontos para enfrentar o desconhecido.
Levamos Viseu na mira para jantar e dormida. O dia corre com paisagens inusitadas à beira da estrada. Há motas que rasgam os céus, ruínas do que foram casas ou fábricas antigas e muito alcatrão para percorrer, ao qual já quase chamamos casa.
Vamos parando, quando há algo que nos chama. Uma beleza natural, umas botas que observam a paisagem, um santo, um baloiço…
Em Viseu, ficamos num hostel agradável. Instalamo-nos e vamos matar a fome num bar com decoração esmerada e gente simpática.
As gentes simpáticas têm sido uma constante até aqui. O calor humano, como o do sol, fazem-se sentir desde o quilómetro zero. Há quem quase nos abrace com palavras aconchegantes.
Regamos o jantar, mais uma vez, com vinho tinto, prometendo não voltar a ele no dia seguinte. Promessa essa que, se tivéssemos usado para as escadas da Senhora dos Remédios, nos faria perder o milagre por incumprimento.
A conversa, durante o jantar, vem no seguimento do álcool. Falamos da vida e da forma como encaramos as relações. Somos seres com muitos caminhos percorridos que vão marcando os que ainda temos de percorrer. Olhamos em frente sem esquecer as curvas. Na estrada como na vida.
Viseu – Pedrógão Grande
O quarto dia amanhece na ressaca da conversa, não do vinho. Tondela será o próximo ponto de paragem, ou não, ainda não sabemos.
Como a terra não nos fala ao ouvido, continuamos para a do ditador, seguindo ao lado da Ecovia do Dão, que parece ter sido plantada numa antiga linha férrea.
Santa Comba Dão encanta com a sua beleza, ao contrário do ditador. As águas do rio são mornas neste dia de calor. Um pato parece andar sobre as águas calmas, qual se diz que Jesus o fez nas revoltas.
Da terra de Salazar vamos para Mortágua que é já ali ao lado. E há mais água por aqui que termina na barragem que a segura para, de quando em vez, a largar.
Tal como a barragem, vamos segurando ou largando imagens nas nossas memórias. Somos agora, mais do que nunca, exploradores à caça de tudo o que a estrada tem para nos oferecer. Estamos abertos ao que nos encha os olhos, ouvidos e pele. Saboreamos o ar que respiramos e inspiramos fundo estes pedaços de vida.
Somos levados agora junto ao Mondego e ao Alva que nos acompanham na viagem. Vamos cruzando as suas margens, conforme a estrada. De cá para lá e de lá para cá, até chegarmos à praia fluvial de Penacova com o sol a queimar-nos o ânimo.
A bandeira está verde e o rio parado. Há famílias com crianças pequenas a torrar ao sol. Perguntamo-nos porquê, mas não encontramos resposta. Afinal, há coisas que não têm explicação.
Encontramos Penacova na encosta do monte. Lá no alto, há casinhas que parecem suspensas, presas apenas por fios. Mas deixamo-las ali, pendentes, e seguimos viagem.
Pelo caminho, almoçamos num supermercado. Hoje, ao contrário dos dias que comemos ao ar livre, temos o café logo a seguir à refeição e ao fresco do ar-condicionado. Como sabem bem estas artificialidades, de vez em quando!
O dia queima-nos até às entranhas, mas a estrada apela-nos a partirmos. Enchemo-nos de coragem e vamos.






A possibilidade de perspectivas para observarmos o caminho é infinita. Poderíamos tentar chegar a todos os marcos alusivos à rota; poderíamos registar todos os estabelecimentos comerciais que aproveitam a chance de mencionar a rota; poderíamos focarmo-nos na diversidade da paisagem; contar as placas que nos indicam o percurso ou os autocolantes que outros caminheiros lhes estamparam.
No caminho como na vida, basta escolher um ponto de vista para o sentirmos de maneira diferente. Nós escolhemos a estrada, olhá-la com atenção e senti-la, estando abertos ao que ela tiver para nos dar. Até aqui, tem-nos coberto de sensações.
Depois de Vila Nova de Poiares, passamos ao lado da Lousã para nos demorarmos em Góis. Damos um mergulho e umas braçadas no Rio Ceira fresquinho e quente à medida que vamos nadando. Os peixes mordem-nos as pernas e os pés se paramos, impelindo-nos a continuar. E, cansamo-nos de tanto descansar.
Ainda com os fatos de banho molhados, voltamos a fazer-nos à estrada para Pedrógão Grande. Desfrutamos melhor da viagem quando não estamos a arder por dentro.
Faz-se tarde e são horas de procurar um lugar para dormir. Arranjamos uma chamada “casa dos gatos” em Pedrógão Grande.
Neste quarto dia, jantamos num sítio modesto. Gostamos desta ausência de pretensões. Não se pretender demais, não se elevar expectativas, dá azo a surpresas mais agradáveis. Falamos sobre isso entre garfadas nos pratos trocados de alheira com ovo e bife pimenta com sabor a bife café que regamos, agora, com vinho branco fresquinho. Depois voltamos à “casa dos gatos” que tem destes animais verdadeiros no quintal e de loiça espalhados pela casa. Dormimos com uma imagem a Shiva a zelar por nós que nos restitui o lado zen necessário para o dia seguinte.
Pedrógão Grande – Ferreira do Alentejo
De manhã, rumamos à Sertã, por onde passamos de fugida em direcção ao coração de Portugal: Vila de Rei. Palpita-nos como o centro de tudo, do país e da viagem. Já percorremos metade do caminho e a viagem tem-se feito por dentro e por fora. Cada quilómetro entranha-se-nos pelos poros.
Espreitamos o Sardoal e escolhemos Abrantes para almoço.
Estão quase quarenta graus quando entramos no Alentejo. Podíamos desistir agora e deixarmos o resto da viagem para uma meia estação mais fresca. Mas já estamos no meio e já só falta a outra metade. Decidimos, então, continuar em frente para as planícies.
Progressivamente, o verde vai dando lugar ao amarelo e tudo parece seco e plano. Não entramos em Ponte de Sor ou Avis, pois a estrada não as atravessa. Entramos em Mora e contornamos Coruche que também não pertence à estrada. Montemor-o-Novo dá uns ares da sua graça com gente a filmar num jardim. Mas já quase não conseguimos sair do carro, tal é o calor. E ficamos apenas com um gostinho na boca do potencial desta terra. Ficará para outras núpcias, resolvemos.







Às seis da tarde, o termómetro ainda passa dos quarenta graus. Parece que nos desfazemos em suor cada vez que abrimos o vidro do carro. Viana do Alentejo e Alcácer do Sal passam depressa. Não entramos, nem paramos.
Seguimos para Ferreira do Alentejo onde passamos a noite. Arranjamos quarto numa antiga casa senhorial, num lugar com nome de pátio.
O anfitrião faz-nos uma visita guiada pela casa. Tem muitos quadros nas paredes, talvez alguns pintados pelo próprio, que seguimos até ao terraço, onde se pode ver toda a vila. Conta-nos que, em tempos, tudo era seco o que agora verdeja um pouco, devido à barragem do Alqueva. Aconselha-nos aquele terraço para o final do dia, que cumprimos religiosamente à noite.
Ferreira do Alentejo – Faro
De manhã, continuamos pelo asfalto quente. Aljustrel e Castro Verde passam-nos através das janelas. A estrada aparece-nos com oliveiras a fazer-lhe sombra. Há bichos mortos ao longo do alcatrão, cegonhas em ninhos nos postes e insectos que voam à nossa volta quando saímos do carro.
Encontramos uma torre magistral de fardos de palha que parece uma mansão. Alguém poderia viver ali dentro se fosse oca. Com certeza que não será ou os fardos de palha tombariam, mas a ideia dá largas ao imaginário e rodeamos a torre à procura de uma porta de entrada inexistente.
A viagem está a chegar ao fim, falta-nos muito pouco para terminar. Almoçamos coisas frescas numa Almodôvar escaldante e partimos para Loulé, São Brás de Alportel e, por fim, Faro, o ponto final desta história.
Faltam menos de cem quilómetros para terminar. O fim iminente traz uma espécie de nostalgia. Como se o que passou fosse mais próspero do que o que há-de vir.







De Almodôvar a Loulé, a estrada está cortada e somos obrigados a seguir por outras que não a N2.
O mesmo Algarve que nos rouba a estrada devolve-nos o verde nas paisagens. O relevo acentua-se, mas a troca de estradas perturba-nos. O caminho não é o que queremos seguir, mas é o que temos de percorrer se queremos concluir o trajecto a que nos propusemos. Afinal, na estrada como na vida.
Quando chegamos a Faro, a via é-nos, de novo, furtada. Há um corte que não nos permite seguir em frente. Andamos às voltas para descobrir como regressar à Nacional e eis que vemos o quilómetro 738 inscrito numa rotunda construída para o efeito e para as fotos da praxe.
Temos os quilómetros e o marco final. Foram quase oitocentos quilómetros percorridos para chegar ao mar. Será o oceano a ditar o fim? Ou, pelo contrário, será o mar o marco de um novo (re)começo?
Texto: Sofia Troni
Fotografia: Helder Bento







Gostei mesmo muito. Gostei da cena de um outro tempo que anda mais devagar, sempre senti muito isso na Zambujeira.
Há mais outras coisas que tb gostei muito mas já não me lembro.
Das fotos gosto de todas em que está a Sofia particularmente a q ela está na casa de banho e tb se vê um quadro a cor de tijolo e azul.
Fiquei cheia de vontade de viajar. Assim dessa forma.
Obrigada