Capitalismo trumpista: quem paga é o João

Luís Capucha

Luís Capucha

Sociólogo, professor no Departamento de Ciência Política e Políticas Públicas do ISCTE-IUL e investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, desde 1987. Coordenador do Mestrado em Administração Escolar no ISCTE-IUL.
Os principais temas de pesquisa são as políticas de luta contra a pobreza e a exclusão social, as políticas sociais, as políticas de educação e de formação, as culturas populares, a reabilitação de pessoas com deficiência e as metodologias de planeamento e avaliação. É autor de livros, capítulos de livros e artigos de revista e outros títulos (mais de uma centena de títulos) publicados em Portugal, Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Itália, Brasil e Angola. Apresentou comunicações e Conferências em cerca de duzentos encontros científicos em Portugal e no estrangeiro. Foi Director-Geral do Departamento de Estudos, Prospetiva e Planeamento do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social (1998-2001), Director-Geral da Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação (2006-2008) e Presidente da Agência Nacional para a Qualificação (2008-2011). Foi membro do Comité de Emprego da União Europeia. É membro do Conselho Nacional de Educação. É um colaborador ativo de associações diversas, de caráter social, profissional e local.
Escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990.
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Com apenas 50 mil Euros de indemnização o banco correu com o João Pereira. Inventaram uma fórmula qualquer e disseram-lhe: – “É pegar ou largar. Ou isto ou o despedimento por ausência do serviço sem aviso prévio”. “Filhos da puta”, pensou o pobre homem, calando a revolta. Deram-lhe dois dias para pensar.

Foi falar com o Carlos Mendes, do pessoal.

– “Eu aceitava, pá. É uma miséria mas estes cabrões daí não sobem. Só descem. Tem sido sempre assim”.

– “Mas eu tenho as faltas mais do que justificadas, porra”, protestou o João Pereira. –“O próprio Tribunal enviou uma carta à Direção”.

– “Pois, pois…e vais para o tribunal? O mais certo é ganhares, mas quando? Até estar tudo resolvido, podem passar três ou quatro anos. Fora os recursos…”

– “Oh Carlos, mas não achas que se a gente se rebaixa, estes gajos nunca mais param. Oferecem-me, por vinte e um anos de trabalho, o mesmo que o Administrador ganha num mês. Ficamos como esses putos que vêm para aí trabalhar que nem cães… nem cães? Nem os cães trabalham assim, em lado nenhum. Cheios de cursos e diplomas, esfolam-se para levarem 700 paus para casa ao fim do mês. Em vez de protestarem como nós fizemos, calam-se e andam aí todos engravatados e cheios de peneiras. E passam a vida a olhar para o colega do lado a ver se o lixam para treparem um bocadinho na empresa. Sempre em trabalho precário. Lembras-te das nossas greves e da porrada com a polícia?”

– “Se me lembro, João! Mas nesse tempo os sindicatos tinham força e o pessoal estava unido. Agora é cada um por si”.

Falaram depois sobre o que já previam quando a Tatcher conseguiu derrotar a greve dos mineiros do carvão e ridicularizar os sindicatos. E quando ao mesmo tempo que a ocidente o Ronald Reagan fazia o mesmo serviço de destruição das organização dos trabalhadores, a oriente o Deng Xiao Ping entrava nos jogos do mercado mundial e dos acordos de comércio, oferecendo milhões de trabalhadores ao preço da uva mijona às empresas que estivessem dispostas a deslocalizar-se para os paraísos do capitalismo, onde os trabalhadores eram oferecidos como maná às gulas das mega-empresas da economia global que começava a construir-se.

– “Estava-se mesmo a ver, não estava?” perguntou o Carlos Mendes. – “Como é que o pagode foi naquela conversa? Que as empresas não podiam  sobreviver por causa da concorrência mundial, que era preciso flexibilizar e acabar com a rigidez do mercado de trabalho, que o Estado levava o dinheiro todo e as empresas ficavam afogadas com impostos, que a economia não suportava tantas regalias e tanta gente a viver acima das possibilidades, que os socialistas só sabiam era gastar e a direita é que tinha de pôr tudo na ordem…”

– “Mas olha que os socialistas também… Às vezes parece que se esqueceram de quem deviam defender e passaram a fazer o mesmo que a direita. E a quantidade deles que se deixaram corromper? Por isso não admira que tenham levado porrada por essa Europa fora e quase tenham desaparecido. Onde é que sobreviveram? Nos países Nórdicos e…neste nosso jardim!”, interrompeu o João Pereira, num raro rasgo de assertividade.

– “Nisso és capaz de ter razão. Os grandes negócios especulativos fizeram-se tanto com governos de direita como de esquerda. Compram-se empresas saudáveis só para as “emagrecer” despedindo pessoal a eito, e depois as vender na bolsa por valores muitas vezes superiores, sem que os compradores, os especuladores, sequer lá tenham posto os pés. E todos os governos vêm os paraísos fiscais debaixo dos olhos e não fazem nada, a não ser criar dinheiro fictício para manter os eleitores contentes com as casas novas e os carros comprados com empréstimos aos bancos que não tinham mas emprestavam. E todos foram no jogo da precarização do trabalho, do ataque aos sindicatos, da desvalorização do trabalho. Estava bem de ver e, se te recordas, nós já o dizíamos: isto não pode ser. Estamos a caminhar para um mundo cada vez mais desigual e qualquer dia rebenta a bolha e vai ser o bonito!”

– “E a malta é tão pacóvia que vai atrás das cantigas, continuou o João Pereira a ideia do amigo. Em vez de se juntar, põem-se é uns contra os outros. São os mais novos contra os mais velhos porque têm de lhes pagar as reformas e não vai sobrar nada para eles; os do privado contra os do público porque não têm as regalias da ADSE; é a inveja contra os tipos da AutoEuropa que ganham bem e ainda refilam; é os trabalhadores contra os cientistas porque os robôs lhes vão roubar os emprego; é os do Norte contra os do Sul e os do Sul contra os do Centro porque todos dizem que os outros é que levam o investimento todo; eu sei lá…Parece que anda tudo cego, a zangar-se com os do lado, e os de lá do alto a rir-se e a fazer as negociatas que criam fortunas de um  minuto para o outro e sem qualquer trabalho! Trabalho? Isso é para os outros, e só se fôr barato e sem direitos”, rematou o João Pereira, ainda a pensar que o Administrador do Banco leva para casa todos os meses os 50 mil Euros que agora lhe querem dar ao despedi-lo ao fim de 21 anos dedicados à empresa.

– “Eh pá, mas nós não pensávamos é que isto descambasse tanto. Já viste? Fascistas em governos de países da União Europeia, o Brexit e os nacionalismos todos a crescer, os populistas a tomar conta disto tudo e agora, aquela besta do Trump na América”.

– “Nem me digas. Os gajos que diziam que era tudo igual, e que o Barak Obama ou a Clinton era tudo a mesma coisa, todos imperialistas e agentes do capitalismo mundial, o que é que dirão agora?”

– “É que agora, com o “capitalismo trumpista”, a banditagem de fraque anda toda à rédea solta. E como se não bastasse, parece que mandaram instalar na Casa Branca a sede da misoginia, do racismo, da xenofobia, do sexismo, do machismo, do chauvinismo e sei de quantos ismos mais. Todos do pior. O tipo é mesmo uma besta, perigosa, muito perigosa. Preconceituoso e ignorante, um dia faz disparate grosso e provoca um desastre qualquer dos muito grandes por aí.”

– “Esqueceste-te da misantropia, pá. Ainda há palavras caras a gastar para falar desse monstro. Parece que para ele só existe o seu próprio penteado e os gajos e gajas da família. De resto, dá-se mal com toda a gente. E a misoginia, então a misoginia? Vês o que ele diz das alterações climáticas? Para ele a razão, a ciência e a lógica estão abaixo da batata”.

– “Bem, hoje parecemos uns doutores a falar. A gente sempre vai aprendendo umas coisas nesta vida, não?” Disse, para pôr fim ao desvio erudito, o Carlos Mendes.

– “ A porra toda é que no fim disso tudo eu é que vou para o desemprego e tenho de pensar no que é que vou fazer”.

– “Olha, as coisas por cá estão a melhorar. Pensa positivo.” Carlos Mendes tentava animar o amigo. “Afinal está-se a provar que os socialistas, com apoio dos comunistas e dos maoistas, dos trotskistas e dessa salganhada toda dos queques de Esquerda, também sabem tratar das contas públicas e podem suportar governos que põem a Europa toda a bater palmas. Diminui o desemprego – tu é que estás em contramão, pá – diminui a dívida, diminui o défice, a economia cresce. O ambiente está melhor para quem quiser iniciar um negócio. Está bem que nas coisas da segurança, da justiça e da administração interna só têm feito merda. E que na saúde e na educação fazem que andam mas não andam. Mas não há dúvida que acabaram com o cancro da austeridade e puseram isto tudo a andar”.

– “Sim, Carlos, mas nas políticas de trabalho, está tudo na mesma. Quem andava montado no cavalinho, lá continua, e parece que cada vez mais à vontade. E isto é o que consegue fazer um governo de esquerda: fazer chegar mais uns tostões aos pobres, os mesmos que o Passos lhes tirou, mas os milhões vão para os mesmos de sempre”.

– “Oh. João, a malta está mesmo chateada com isto do teu despedimento. E sabes que, pelo menos com o bando dos 5, podes sempre contar”, rematou o Carlos Mendes antes de se despedir, até quando o João quisesse aparecer.

A conversa, de qualquer modo, resultara. O João tomou uma decisão: com o dinheiro da indemnização, mais os 20 mil que ainda sobraram do negócio da casa, mais o dinheiro que o IEFP lhe podia dar de uma vez só, equivalente a 24 meses de subsídio de desemprego, para aí uns 30 mil, havia de juntar o suficiente para montar um negócio qualquer. Como disse a cínica da psicóloga, o que era preciso era resiliência e empreendedorismo. Conversa. Mas por agora era o que tinha.

Legenda da imagem: Por causa destes é que o João vai para o desemprego

 

Continua no próximo episódio


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