Assédio sexual consumado

Maria Pereira

Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos.
Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos.
Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se.
Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo?
Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias
de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração.
Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.
Maria Pereira

Latest posts by Maria Pereira (see all)

Há muitos anos, perto de quarenta, trabalhava eu no norte do país – não vou dizer os verdadeiros nomes ou lugares (vai perceber-se porquê) – e nesse ano, eu ficara a exercer funções no berçário.

Era uma região onde existiam várias fábricas de confecção e algumas delas, porque havia muito trabalho para exportação, faziam horários de três turnos. Eram quase só mulheres “costureiras de cose e corte”, como elas próprias se intitulavam. Horários rotativos que implicavam termos, no infantário, meninos que entravam e saíam cada semana a horas diferentes.

Quando os pais (homens) trabalhavam em horário certo, eram estes na sua maioria que traziam e levavam os filhos. Mas no caso que vou contar, o pai era motorista de uma empresa e a mulher tinha horários rotativos. Era quase sempre ela, por vezes a avó ou o avô e até o pai, que me entregavam o menino, um bebé lindo, bem cuidado e calmo que encantava toda a gente.

A mãe, nos dias em que podia vir buscar o seu menino, conversava um pouco comigo, conversas banais, do seu marido, do filho, do trabalho. Também da vida difícil que tinha, dos magros salários conseguirem tirar o dinheiro necessário primeiro para a criança, infantário, fraldas, roupinhas e alimentação em casa. Enfim, a vida de gente pobre, a renda da pequena casa onde viviam, a prestação dos poucos móveis que tinham comprado.

A pouco e pouco, fomo-nos tornando amigas a ponto de me fazer confidências da sua vida e, dia após dia, chegou um em que me contou o que se passava na fábrica e o assédio por parte do patrão.

Este, um miserável da pior espécie, que a única coisa que tinha era dinheiro, costumava chamá-la ao seu escritório, por motivo fútil e também para receber o salário a que ela tinha direito e, com o maior despudor, a convidava para ir com ele, que arranjava um quarto de pensão, fora dali, que seria nas horas de trabalho, que ele arranjaria uma desculpa e ninguém ia desconfiar. Ele encarregar-se-ia também de afastar o marido dela, mandando-o levar mercadoria para longe, só regressando de noite.

“Tu vais ter comigo de manhã, nem entras na fábrica, eu encontro-me contigo depois. Vamos almoçar e estás cá à hora da saída.”

Ela diz-lhe que não, que é uma mulher séria, que é casada e que nunca trairá o seu homem. E que ele próprio, o senhor engenheiro, também era casado.

“Cala-te, a minha esposa não é para aqui chamada, exijo respeito! Ouviste? E se te fazes de fina, eu posso despedir-te a ti e ao teu marido! Parva, se eu dissesse isto a outra, vinha já toda contente!”

“Pensa, pensa, eu dou-te até amanhã para me dares uma resposta e, só para que saibas, eu tenho ali o papel do abono do teu filho. Se fores comigo, entrego-to, se não fores… O mal é teu!”

Tudo isto me foi contado entrecortado por soluços e lágrimas caindo a quatro e quatro.

Eu nunca tinha visto chorar assim! Que angústia, que desespero!

– Que hei-de eu fazer? Eu não vou com ele! Nunca! Juro por Deus! Mas se ele me despede, fico sem o meu ganha-pão. Ajude-me dona Manuela! Ajude-me! O que hei-de eu fazer para me livrar?

– Olhe, Maria, eu só posso dar-lhe um conselho. Conte ao seu marido!

– Não, eu não posso, ele mata o patrão. Não é pelo engenheiro, que bem merece, mas pelo meu homem e pelo menino, que não têm culpa de nada!

– Diga ao seu marido, conte-lhe tudo. É juntos que têm de encontrar solução para os vossos problemas, sejam eles quais forem!

– Pois assim será! – prometeu num rasgo de coragem – Eu vou contar tudo e aquele filho da puta, a senhora desculpe, há-de ver o que é uma mulher, apesar de pobre e de mal saber ler!

Acalmei-a conforme consegui e prometeu-me, como era sexta-feira, que na segunda me contava a reacção do marido e o que fariam no futuro.

Passei o fim-de-semana preocupada com o assunto e, na segunda-feira, mais preocupada fiquei quando vi a avó vir buscar o neto.

Mais três dias e não me contive:

– Então a Maria? Não tem aparecido… Esta semana ela saía às quatro, não era?

– Pois, minha senhora, mas aquilo lá no trabalho desde terça-feira que não anda bem, e ela despediu-se. O cabrão do engenheiro (com a licença da senhora) não lhe dava o dinheiro do abono, o cabrão! Mas com a graça de Deus, ela e o marido p’rá semana que vem já têm emprego noutro lado. Ela é uma boa costureira, ele a guiar o camião não há melhor…

– Oxalá corra tudo bem, eles merecem.

– Se merecem… A minha Maria é uma boa mulher e ele também é um bom homem!

Só na segunda-feira seguinte é que a Maria apareceu a trazer o filho.

– Então? – perguntei refreando a custo a minha curiosidade.

– Ai, se a senhora soubesse… contei ao meu marido, ele ficou fulo, queria ir lá logo, mas com a ajuda do meu irmão, que é muito nosso amigo, consegui acalmá-lo e combinámos como íamos fazer.

– Na segunda-feira o patrão chamou-me ao escritório. Eu fui, claro, nervosa mas fui e falei o combinado com o meu Zé e o meu irmão.

“Senhor engenheiro, eu não sou capaz de ir para uma pensão! Tenho vergonha, só se for na minha casa…”

“Então concordas? Vês como eu te dizia para pensares… não te vais arrepender. Eu sou muito bom para quem me faz as vontades, vais ver! E com o teu marido? Como vais fazer?”

“O senhor engenheiro nesse dia manda-o para longe, de forma a que ele tenha de lá dormir. À noite, o senhor vai ter a minha casa, sem que ninguém o veja, tem que ter muito cuidado para não se saber. Ai se o meu homem desconfia, mata-me!”

“Não tenhas medo, ninguém me há-de ver, vou fazer-te muito feliz, vais ver! Vai ser depois de amanhã! Vês como fiquei bem disposto?” – os olhos dele parece que furavam a minha blusa – “Amanhã digo ao teu marido que tem que ir a Lisboa e depois de amanhã a Almada, tem que lá ficar, eu pago as despesas todas, claro!”

– E depois? –  pergunto eu, ansiosa.

– Depois ele foi, eu estava muito nervosa, dona Manuela, mas lá o levei para o quarto.

“O senhor engenheiro desculpe, isto é uma casa muito pobre.”

“Não faz mal, eu não venho ver a casa, só te quero a ti.”

– E entrou no quarto como se fosse um rei! Lá dentro, atrás do armário da roupa, estavam o meu marido e o meu irmão, que nem sequer o deixaram falar, caíram-lhe em cima e deram-lhe uma coça de caixão à cova. Ele não se defendeu, nem disse nada. Chorava, o palerma sem vergonha.

– Que bom! – atalhei – Eh gente valente! Que bem feito! Que essas mãos sejam abençoadas! Dê cá um abraço, Maria, tenho muito orgulho em ser vossa amiga!

– Também nós temos muito orgulho em sermos amigos da senhora. Deu-me tanta força! Deus lhe pague!

Resta dizer que o bandalho se calou, se desculpou com uma queda que tinha dado nas escadas da fábrica, não fosse saber-se a verdade e o senhor engenheiro passasse a ser motivo de chacota.

 

Fotografia: Pixabay

Subscrever Histórias e Personagens de Outros Tempos


 

Comentários

Comentários

Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos. Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos. Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se. Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo? Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração. Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

nine + four =