A exasperante duração das corridas de toiros em Portugal

Luís Capucha

Luís Capucha

Sociólogo, professor no Departamento de Ciência Política e Políticas Públicas do ISCTE-IUL e investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, desde 1987. Coordenador do Mestrado em Administração Escolar no ISCTE-IUL.
Os principais temas de pesquisa são as políticas de luta contra a pobreza e a exclusão social, as políticas sociais, as políticas de educação e de formação, as culturas populares, a reabilitação de pessoas com deficiência e as metodologias de planeamento e avaliação. É autor de livros, capítulos de livros e artigos de revista e outros títulos (mais de uma centena de títulos) publicados em Portugal, Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Itália, Brasil e Angola. Apresentou comunicações e Conferências em cerca de duzentos encontros científicos em Portugal e no estrangeiro. Foi Director-Geral do Departamento de Estudos, Prospetiva e Planeamento do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social (1998-2001), Director-Geral da Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação (2006-2008) e Presidente da Agência Nacional para a Qualificação (2008-2011). Foi membro do Comité de Emprego da União Europeia. É membro do Conselho Nacional de Educação. É um colaborador ativo de associações diversas, de caráter social, profissional e local.
Escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990.
Luís Capucha

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Luís Capucha, Presidente da Associação Nacional de Tertúlias Tauromáquicas

Realizou-se ontem no Salão Nobre do Campo Pequeno, por iniciativa do Campo Pequeno TV, da Sociedade do Campo Pequeno e do Grupo Tauromáquico Sector 1, um debate sobre a excessiva duração das corridas de toiros no nosso país. José Cáceres apresentou um estudo minucioso e de grande importância sobre todos os tempos ocupados em média com cada momento de uma corrida na temporada de 2017 no Campo Pequeno e, mesmo nessa Praça onde, devido ao profissionalismo dos campinos, a recolha dos toiros dura pouco mais de um minuto, a duração média das corridas foi superior a três horas. Se essa foi a duração média, imagina-se o que terão durado alguma delas. E se foi assim no Campo Pequeno, o que se terá passado no resto do país…

Foi muito interessante o debate, com moderação de José Cáceres e tendo como intervenientes, na mesa, Pedro Reinhard, Rui Bento Vasques, Rui Salvador e Patrícia Sardinha, crítica tauromáquica e Presidente do Sector1. Sala a abarrotar com os quase 50 aficionados presentes.

O assunto é extremamente importante. De facto, não há, nos nossos dias, outros espetáculos com tamanha duração. E se,  nos toiros, isso não é problema, pelo contrário, no caso de triunfos redondos de toureiros e ganaderos (assim ninguém se enfada), a verdade é que na esmagadora maioria dos casos este facto se deve a vícios que só prejudicam a festa.

Comecemos com um factor muito importante: o atual “Regulamento”, aprovado em 2014. É um péssimo Regulamento. Por volta de 2010 a IGAC reuniu várias vezes a Comissão Nacional de Tauromaquia para rever o Regulamento de 1991. A Comissão deu um especial destaque às questões da segurança e dos tempos mortos nas corridas, de modo a encurtar a repetiva duração. Todas as propostas que se apresentaram no debate de ontem estavam contempladas na proposta de Regulamento aprovado pela Comissão Nacional de Tauromaquia, mas depois o que acabou por sair foi uma desilusão. Não foi só na inqualificável exclusão dos matadores de toiros como artistas tauromáquicos. Também não foi só na escassez de medidas relativas às praças de toiros, entretanto penalizadas com uma inspeção casuística e de contornos profundamente anti-taurinos. Refiro-me aqui apenas às questões que tinham a ver com a tentativa de reduzir a duração excessiva das corridas de toiros. Alguém, de dentro da Festa, em defesa de interesses particulares e imediatistas, se movimentou para alterar o que tinha sido acordado e o Regulamento aprovado pelo governo de então deu o resultado que se tem visto. Logo, a primeira medida a tomar é rever o Regulamento em defesa da Festa e do seu público, até porque essa é a única maneira de defender os agentes profissionais da Festa com a valorização do seu produto e do seu futuro, que não pode depender de acessórios como as bebidas nos intervalos.

Intervalos que deveriam ser anulados. Era o que se propunha. O que acabou por ficar no Regulamento é que não existem, salvo se os empresários decidirem que sim. O Campo Pequeno anunciou que na futura temporada os vai eliminar. Ainda bem. Mas as outras praças não. E apenas porque em vez de valorizarem o que conta, os toiros e a sua lide, valorizam os tostões que podem arrecadar nos bares. Alguém argumenta que se vai gerar confusão com idas aos serviços e ao bar entre a recolha de um toiro e a saída de outro. Mas em Espanha não há intervalos e não consta que os espanhóis e os portugueses que frequentam praças no país vizinho tenham mais necessidades fisiológicas e de matar a sede lá do que cá. É um argumento falacioso. A eliminação dos intervalos pode ser um importante contributo para a menor duração das corridas.

Também se falou na possibilidade de mudar as cortesias. Talvez, em detalhes que poupam segundos. Mas o importante, o que leva algum tempo, seria errado modificar. O ritual taurino implica esse momento e, embora não esteja o toiro na arena, ele faz parte integrante imprescindível de uma corrida. Não é por aí que se vai lá.

Na duração das faenas, aí sim, pode-se tocar e muito. Tanto no plano regulamentar, como no da seriedade dos cabeças de cartaz e no rigor dos Diretores de Corrida. Esse foi um dos pontos em que “os interesses” mudaram o que estava na proposta de regulamento. A duração da lide tem tempos fixos, que na proposta começavam quando o toiro saía à arena na lide a cavalo, no início da faena de muleta no toureio a pé, e no início da primeira tentativa de pega. No regulamento que se publicou começam quando o cavaleiro crava o primeiro ferro. E prolongam-se por tempos muito para além do permitido no regulamento. Em todos os tércios, embora julgue que os forcados por vezes têm razão para demorar um pouco mais (além disso, se isso acontece, é à custa das tareias que levam, o que se deve ter em conta), mas nem sempre. O Regulamento deve ser revisto e os Diretores de Corrida devem ser rigorosos, o que raramente acontece. O toureio quer-se feito devagar, sem correrias. Mas o que se passa nas nossas praças de toiros é que se fazem correrias, quase sempre sem sentido de lide e durante demasiado tempo.

Mas pior são as voltas de “triunfo”. No Regulamento que foi aprovado pela Comissão Nacional de Tauromaquia, como já acontecia no de 1991, o Diretor de Corrida autorizava as voltas, com os lenços de diferentes cores, a pedido do público. Agora, é só o Diretor de Corrida que determina, e muitas vezes mal, com demasiado facilitismo e benevolência (apetece dizer reverência) para com os profissionais. O público não pede nada, mas os cavaleiros, mesmo com lides medíocres ou apenas sofríveis, às vezes depois de uma carrada de ferros pescados e toques na montada e apenas com um ou outro ferro sofrível, no meio de demonstrações de doma e números circenses, dão uma ou duas voltas em cima do cavalo, às vezes ainda pedem mais um ferro e, se os papalvos na praça se deixam contagiar pelos incentivos do profissional, são quase sempre autorizados a dar volta já desmontados, sem mérito para isso. Em Espanha é o público que determina o tipo de valorização de uma faena (bronca, silêncio, divisão de opiniões, saudação nos tércios, volta ou orelha). Em Portugal, é ao contrário. O sistema está montado para a volta sistemática (são raras as execções e as praças em que prevalece a “vergonha toureira”) e aí se perdem tempos infinitos.

No campo pequeno, porque os campinos são residentes e competentes, o tempo médio de recolha dos toiros é curto. Mas como disse no colóquio uma figura da nossa festa, sendo certo que a recolha deve ser tão breve quanto possível, o melhor seria dispensar os campinos e os jogos de cabrestos, que “avisam” mais o toiro do que ajudam a apressar a recolha. Os toiros poderiam ser colocados à porta dos chiqueiros pelos bandarilheiros e, seguranmente, quase sempre se dirigiriam rapidamente para os curros. A não ser quando a recolha é anunciada como parte do espetáculo (por exemplo, recolha com os campinos a cavalo), este tempo morto das corridas poderia ser muito encurtado com esta medida.

Tal como o poderia ser se o cartaz com o anúncio do peso, ganadaria, nome e idade do toiro que se vai seguir pudesse ser anunciado enquanto decorre a volta à arena pelos artistas, e se os areneiros pudessem fazer o seu trabalho higiénico na mesma altura. Isso tira brilho à volta, como dizem alguns? Só se a volta não tiver sido merecida, direi eu.

Foram apresentadas outras porpostas que, vindas de onde vieram, me deixam assustado, como a de começar a fazer corridas só com quatro toiros! Isto é, não se mudava nada do que está mal, e mudava-se o que está bem, os seis toiros seis, que, salvo exceções devidamente justificadas, permitem a alternância entre uma terna de toureiros com dois toiros a cada um. Eu sei que na cabeça de muitos dos nossos taurinos esse conceito não vale nada, tantas são as touradas com seis cavaleiros. Mas isso corresponde ao perfil de um festival e, sendo promovido como corrida, é uma adulteração do sentido da Festa.

Também apareceu no debate uma ideia que parece inequivocamente certa, mas pode conter riscos. Os espetáculos tauromáquicos não podem ser pensados tendo em conta apenas os aficionados, mas também o grande público, Nomeadamente, deve formatar-se para se tornar atrativo no formato televisionável. Sem dúvida, concordo. Mas para que um espetáculo de toiros agrade ao grande público e encaixe na programação das televisões, o que é preciso é que respeite os valores que os aficionados reclamam. Não é fazer o contrário, introduzindo truques que adulteram a verdade e o pundonor que é a essência da Festa. Se não, estaremos a vender ao grande público gato por lebre. E aí, sim, a festa fica em risco. Foi com o desrespeito da sua essência que ela desapareceu de locais onde chegou a ter força, como no Brasil. Temos de fazer muito para defender a Festa dos ataques externos e torná-la apelativa para o grande público. Creio que posso presumir de não precisar, nesse aspeto, de lições de ninguém. Mas essa tarefa só terá sucesso se internamente a Festa de Toiros se respeitar a si própria e se respeitar os aficionados. Os quais, acho eu, não podem deixar de estar representados nestes debates, como os maiores interessados em valorizar a Festa que pagam. Como alguém disse acerca da guerra e dos militares, a Festa é um assunto sério demais para ser deixado só aos profissionais.

Vila Franca de Xira, 16 de fevereiro de 2018


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