Um dia improvável

Susana Diniz

Susana Diniz

"Sorriso de menina. Mulher. Determinada. Inteligente. Aperta nas mãos o coração de gente mas guarda no peito as cicatrizes da vida. Amiga. Sincera. Gosta de abraços sinceros e prolongados. Gosta tanto de loucuras como de silêncios. Acredita no olhar quando as palavras o desmentem. Gosta dos que ousam discordar. Dos que a fazem sorrir e a deixam sonhar."
ANA RUTE
Susana Diniz

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Calcei as botas em pleno Agosto. O dia seguinte à passagem do Tufão Hato foi um dos dias mais difíceis da minha vida em Macau.

O bairro por trás da minha casa estava irreconhecível. Dezenas de árvores partidas ou arrancadas pela raiz, toneladas de lixo na rua, vidros partidos, portas desfeitas, carros submersos, motas engolidas pela força da água, o choro das pessoas.

Quase não consegui tirar uma fotografia. O cheiro nauseabundo empolado pelos 35 graus afectava a minha capacidade de reacção. Entre pedidos de ajuda, pedidos de água ou apenas um sorriso, lá fui caminhando entre escombros do que parecia um cenário de guerra.

Estive cerca de duas horas na rua. E não posso precisar quanto andei exactamente. A cada esquina o cenário  se tornava pior. Quanto mais perto do rio, mais dramático se erguia perante os meus olhos.

A zona do Porto Interior sofreu muito. A força do Tufão, que atingiu a escala máxima da sua força, tinha arrasado tudo e deixado pessoas com as suas vidas completamente devastadas. A água ali subiu mais de dois metros.

Decidi voltar a casa. Não tinha água e a luz tinha entretanto voltado. A busca por água tornou-se prioridade. Supermercados com filas gigantescas, o preço da água em mais do triplo e ninguém para pôr ordem no meio do caos.

Consegui comprar algumas garrafas. Acartei-as para casa debaixo de um sol intenso, como Macau raramente vê. Voltei a sair. Fui até uma boca de incêndio para conseguir água para dar banho à minha filha.

Vivi assim dois dias. Numa cidade que se diz moderna, ninguém conseguiu aplicar um plano rápido. As pessoas amontoavam-se em todo o lado, onde houvesse apenas o indício de que havia água.

A vida entretanto voltou ao normal. A cidade continua ferida, mas está a reerguer-se. Quanto às suas gentes… Macau, foste, és, e continuarás a ser enorme.

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“Sorriso de menina. Mulher. Determinada. Inteligente. Aperta nas mãos o coração de gente mas guarda no peito as cicatrizes da vida. Amiga. Sincera. Gosta de abraços sinceros e prolongados. Gosta tanto de loucuras como de silêncios. Acredita no olhar quando as palavras o desmentem. Gosta dos que ousam discordar. Dos que a fazem sorrir e a deixam sonhar.”
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