Turismo, Cultura, Economia e Sociedade

Rui Brito Fonseca
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Rui Brito Fonseca

“Expatriado” – no sentido em que está fora do seu destino de nascimento - da minha cidade há mais de uma década por opção, mas Vila-franquense por nascimento e convicção, sou um apaixonado pela cidade (onde me fiz gente) e pelo rio que a constrange.
Doutorado em Sociologia e com um percurso superior a 10 anos na investigação científica, sou docente no ensino superior e consultor.
Mais que tudo, é o prazer de comunicar e a necessidade de exprimir conhecimentos e interpretações das realidades quotidianas que me fazem abraçar este projecto. Espero ser útil…
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Portugal vive hoje um momento turístico sem par na sua história!

Quem passe por uma qualquer rua de Lisboa (e, em alguns casos, da sua periferia), pode facilmente registar um enorme fluxo de estrangeiros. Naturalmente, não estou a referir-me a alguma chegada de milhares de refugiados, oriundos do norte de África ou do médio Oriente. Refiro-me, é claro, à crescente quantidade de cidadãos, essencialmente do centro e norte da Europa, que chegam a Portugal para fazer turismo e conhecer e usufruir dos espaços e paisagens distintas que temos.

Se, durante muitas décadas, a oferta turística tradicional se centrou em Lisboa, Algarve e Madeira, desde há alguns anos que existe um turismo emergente em cidades como o Porto, Aveiro, Coimbra, Évora, Beja, Açores, assim como noutras cidades ricas em património.

Fruto do forte crescimento da actividade turística, Portugal assistiu a uma dinamização da actividade económica, como há muitos anos não acontecia. O impacto do crescimento do turismo e o seu efeito multiplicador, noutros sectores de actividade, como a reabilitação urbana, a conservação e divulgação do património cultural e edificado, o sector imobiliário, os transportes e o sector agro-alimentar – azeite, vinhos, manufacturas, entre outros – têm resultado num incremento das exportações nacionais, com notórios impactos no emprego (só no sector do turismo, em 2017, foram criados cerca de 50.000 empregos).

Contudo, não se pode olhar para esta realidade sem tomar em linha de conta a sua complexidade. O crescimento da actividade turística que estamos a registar não surge do vazio, nem de uma qualquer habilidade de promoção do país. Pelo contrário, este fenómeno é o culminar de um conjunto de factores endógenos e exógenos.

A redefinição estratégica do turismo nacional, desenvolvida desde há alguns anos, onde o eixo central do sea, sun and sand perdem alguma da sua importância, para um turismo valorizador do património material e imaterial (através das certificações da UNESCO), a par de um olhar mais centrado na sustentabilidade ambiental e na vida dos meios urbanos e rurais, permitiu que outras categorias de turistas tenham interesse em visitar Portugal. Para além disso, também não é alheio a esta nova realidade turística, o efeito multiplicador dos programas ERASMUS, bem como da crescente internacionalização da ciência e tecnologia portuguesas, através do já significativo turismo associado a conferências e grandes encontros internacionais de académicos que ocorrem em diversas cidades portuguesas.

É claro que a conjuntura internacional, mormente aquela relacionada com a instabilidade política e social vivida no norte de África e no médio Oriente, também contribuíram para um intenso desvio das rotas turísticas para a Europa do Sul. Contudo esta externalidade positiva não pode ser, por si só, explicativa do fenómeno turístico a que assistimos.

Portugal vive hoje um momento turístico sem par na sua história!

Se, por um lado, também em virtude deste forte crescimento do turismo o país pode iniciar uma trajectória económica ascendente, com a criação efectiva de riqueza e emprego (ainda que boa parte deste emprego seja precário e com salários ao nível do salário mínimo nacional!), torna-se necessário reflectir sobre qual o rumo a seguir, sob pena de matarmos a “galinha dos ovos de ouro” e da euforia passarmos à depressão.

Em primeiro lugar, é necessário tomar as devidas cautelas, para evitar a monocultura do turismo que, como se sabe, descaracteriza, destrói e condena a breve trecho a sua própria exploração. É preciso evitar que aquela que é hoje a maior actividade exportadora nacional, com taxas de crescimento médio na última década na ordem dos 6%, esteja cada vez mais concentrada no litoral. É urgente diminuir a crescente pressão turística sobre o litoral do país, promovendo destinos no interior, capazes de fornecer produtos turísticos alternativos que desviem uma parcela significativa destes turistas, melhorando qualitativamente a experiência turística.

Depois, é preciso evitar que as nossas cidades se transformem em “infernos” de turismo, como acontece já em muitas cidades europeias. Em muitas das grandes cidades europeias (Barcelona, Berlim, Florença, Londres e Roma, entre outras), o fenómeno tomou tal dimensão que já existem movimentos sociais contra os turistas, ou melhor, contra o ruído, o trânsito excessivo de autocarros de turismo e tuk-tuks, a proliferação desordenada de hotéis e alojamentos para turismo ou a denominada gentrificação dos centros urbanos que estes impulsionam.

De facto, não existem fenómenos sociais apenas positivos ou apenas negativos, cada fenómeno é portador de resultados positivos e negativos sobre os meios em que ocorrem. Urge, por isso, regulamentar e fiscalizar, sem colocar em causa as dinâmicas sociais e económicas positivas que o crescimento do turismo trouxe para Portugal.

É claro que a quadratura do círculo é uma quimera, mas podemos tentar chegar perto…


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“Expatriado” – no sentido em que está fora do seu destino de nascimento – da minha cidade há mais de uma década por opção, mas Vila-franquense por nascimento e convicção, sou um apaixonado pela cidade (onde me fiz gente) e pelo rio que a constrange.
Doutorado em Sociologia e com um percurso superior a 10 anos na investigação científica, sou docente no ensino superior e consultor.
Mais que tudo, é o prazer de comunicar e a necessidade de exprimir conhecimentos e interpretações das realidades quotidianas que me fazem abraçar este projecto. Espero ser útil…

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