Pães – Challah, Uma Viagem aos Rituais Judaicos

Maria João Martinho
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Maria João Martinho

Historiadora da Arte de formação, trabalha desde 1999 na área do Património Cultural.
Adora cozinhar desde muito jovem, nutrindo um grande entusiasmo pela investigação de gastronomias internacionais, pela cozinha vegetariana e pela saúde baseada na prática alimentar.
A par da sua profissão, encontra-se actualmente envolvida em alguns projectos na vertente gastronómica, designadamente o projecto "Cozinha com Histórias", a decorrer no Palácio do Sobralinho, onde concilia a história dos alimentos à confecção de menus de degustação temáticos.
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O pão foi, durante grande parte da minha vida, um alimento que não me proporcionava um especial prazer, e menos ainda se combinado com manteiga e doce, como nos davam quando éramos miúdos.

Tal como acontece com os meus filhos – e será talvez assim com quase todos nós quando crianças – o meu gosto pelo pão circunscrevia-se ao acto de saborear um bom naco de pão caseiro, sem mais nada a acompanhar.

Por essa razão, já só em fase adulta, a partir do interesse em fazer os meus próprios pães, despertei para este mundo extraordinário e percebi o quão variados e interessantes poderão ser os seus sabores e aplicações.

Tal como sou uma apaixonada pelas músicas do mundo, o conceito de pão aplicado às gastronomias de todo o mundo passou a exercer em mim um fascínio algo incontrolável, que me levou a procurar nas que me são mais preciosas o conhecimento da forma como o pão é por elas utilizado e tentar, de algum forma, apropriar-me dessas práticas.

Mais do que o pão mais “convencional”, feito a partir de água, farinhas e fermento, tenho procurado encontrar aqueles pães a que chamo de “pães enriquecidos”, porque se apresentam numa versão mais doce, ou porque incluem outros ingredientes que precisamente lhes conferem uma outra riqueza de sabores combinados.

Hoje trago-vos a minha primeira sugestão de pão, que achei curioso pela sua aparência algo complexa, e que remonta a uma cultura tão distante da minha, pessoal, carregando em si parte da simbologia e da prática ritual próprios do povo judaico.

 

O Challah – As Origens

De origem judaica, a etimologia da palavra challah remete-nos para o Torah, escrito em cinco livros e que constitui a base da religião judaica. Dos seus ensinamentos, surgiu a prática de separar duas partes do pão, lembrando o momento em que o povo judeu, entrado no seu exílio do Egipto, permaneceu no deserto durante 40 anos, sendo alimentado pelo maná que Deus lhe enviava diariamente.

Este pão é consumido sobretudo no Sabbath, sexta-feira, dia destinado ao descanso, à renovação espiritual e à actividade religiosa, sendo abençoado previamente.

 

As suas formas podem ser múltiplas, cada qual com uma simbologia muito própria. A versão que vos trago corresponde a uma coroa entrançada, simbolizando Deus como o rei do universo e o seu formato redondo remete para o infindável ciclo da Vida.

 

Challah

(receita adaptada do blog Gourmets Amadores)

Ingredientes

|675 g farinha de trigo, T65

|1 saqueta de fermento seco

|10 g sal

|50 g açúcar

|250 ml água

|60 ml óleo

|2 ovos previamente batidos + 1 gema para pincelar a massa

|sementes de papoila

 

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A união de cada uma das cordas nos vértices produz esta interessante malha, concretizando-se mais um passo da construção do pão

 

Preparação

  1. Misturar 100 ml da água previamente amornada com o fermento e o açúcar, deixando o fermento activar durante alguns minutos
  2. Numa taça à parte, misturar a farinha com a restante água, o sal, os ovos e o óleo e deixar também repousar um pouco.
  3. Juntar os dois preparados envolvendo-os e amassando-os até atingirem a consistência elástica desejável e deixar levedar numa taça previamente oleada, cobrindo-a com um pano ou película aderente. A massa deverá atingir o dobro do seu volume inicial.
  4. Quando a massa estiver pronta, vazá-la com o auxílio dos nós dos dedos. Separar em 6 partes, formar rolos compridos e produzir uma malha, cruzando os rolos como as imagens ilustram. Unir três a três as pontas dos rolos, a partir dos vértices, formando uma espécie de cruz entrançada.
  5. Colocar as extremidades sob o corpo central da massa, de forma a obter uma forma arredondada. Pincelar com a gema, polvilhar com sementes de papoila e levar ao forno previamente aquecido a 180º C durante cerca de 30 minutos. Colocar um ramequim com água no interior do forno, para tornar o pão mais estaladiço.
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O acto de polvilhar com as sementes de papoila simboliza o próprio maná caído do céu para o povo judeu no deserto

Este pão pode ser consumido em qualquer altura, mas acho-o particularmente adequado para um lanche ou pequeno-almoço, atendendo ao seu sabor suave e ligeiramente adocicado.

 

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Eis o aspecto final do challah: tostadinho e apetitoso!

Bom fim-de-semana e bons cozinhados!

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Maria João Martinho

Historiadora da Arte de formação, trabalha desde 1999 na área do Património Cultural.
Adora cozinhar desde muito jovem, nutrindo um grande entusiasmo pela investigação de gastronomias internacionais, pela cozinha vegetariana e pela saúde baseada na prática alimentar.
A par da sua profissão, encontra-se actualmente envolvida em alguns projectos na vertente gastronómica, designadamente o projecto “Cozinha com Histórias”, a decorrer no Palácio do Sobralinho, onde concilia a história dos alimentos à confecção de menus de degustação temáticos.

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