“O Negresco”: Um romance de Francisco Rodrigues Pereira

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O Negresco – História de uma mulher da vida é o primeiro romance de Francisco Rodrigues Pereira e vai ser lançado no próximo dia 29 de Outubro no Clube Vilafranquense

Francisco Rodrigues Pereira é de Vila Franca de Xira. É empresário e trabalhou em várias empresas ao longo da vida, tendo sido o primeiro chefe dos serviços de turismo da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, em 1976.

Apaixonado pelos toiros e pela cultura, escreveu o seu primeiro livro de versos aos 15 anos, cujas ilustrações ficaram a cargo do seu amigo de infância, António, o famoso cartoonista vila-franquense, mas, segundo o autor, “esse livro nunca foi publicado, nem nunca será”.

Ao contrário do livro de versos, Francisco Rodrigues Pereira lança, no próximo dia 29, o romance O Negresco que conta a história de uma prostituta que “vive a vida dos outros, mais do que a própria vida”. É através desta personagem que se vão conhecendo outras, essencialmente uma outra mulher e um homem. “A mulher da vida é o elemento que une os restantes personagens”, explica.

Inês, a da Bica, a personagem principal desta história, é baseada numa pessoa real, mas a trama é 90% de ficção. O autor informa que “ela cresce, envelhece e morre como outra pessoa qualquer”.

No prólogo do livro, Francisco Rodrigues Pereira explica ao leitor: “é um romance que envelhece e faz morrer as suas personagens muito antes de, na vida real, eles serem velhos e morrerem, o que, de certa maneira, o torna um livro implausível escrito no futuro”; e adverte-o, para não gorar expectativas: “Esta história não é uma história sobre as mulheres da vida. É a história de uma mulher da vida, a história do amor de uma prostituta dos anos setenta do século passado por um sedutor, frequentador de cabarets, que a transforma numa mulher de grande lucidez, uma desmesurada e implausível lucidez.”

 

O Negresco

Francisco Rodrigues Pereira conta que o nome Negresco lhe pareceu perfeito para o cabaret. Há vários hotéis com o mesmo nome, um deles em Nice, que o autor conhece bem, pois chegou a frequentar o bar do hotel. Conta que o candelabro do hall de entrada foi a última encomenda feita pelo Czar Nicolau II, antes de ter sido assassinado em 1917 na Rússia, e que o então dono do hotel, um romeno muito conhecido, aceitou ficar com o candelabro que ainda hoje aí se encontra. Além dos hotéis, também um restaurante de Lisboa usou o mesmo nome. Mas neste romance O Negresco é o cabaret que serve de cenário a uma história de “amor sem consequências, lúdico, irresponsável, inacabado por fatalidade pois está destinado a não ter consequências para além das memórias dos seus actores”.

O romance só chega agora, por falta de tempo, já com um Francisco Rodrigues Pereira maduro. O autor esclarece que “quando se está a fazer coisas muito absorventes, como eu fiz em toda a minha vida, não é possível escrever”; e acrescenta: “Para estruturar um romance, escrevê-lo e revê-lo, é preciso muito tempo. Até porque nem sempre se consegue escrever. Há muitos momentos em que o que sai é para deitar fora”.

Dia 29 de Outubro no Clube Vilafranquense
Dia 29 de Outubro, no Clube Vilafranquense
Dois amigos especiais apresentam o romance

No dia 29, O Negresco será apresentado pelo cartoonista António e pelo prof. Dr. Luís Capucha. A escolha destas duas pessoas para dar voz ao primeiro romance de Francisco Rodrigues Pereira no dia do lançamento deve-se a serem dois amigos especiais do autor: “O António é meu amigo de infância, tem a mesma idade que eu, nascemos a 50 metros um do outro, acompanhámos o crescimento um do outro e fomos sempre amigos. O Luís é um amigo especial, que eu vi crescer, era muito amigo dos seus irmãos mais velhos. Tenho uma grande amizade por ele e um grande respeito pela capacidade de análise do Luís. É um bom analista que interpreta muito bem o mundo à sua volta”.

 

Um olhar sobre a terra

Numa breve avaliação das alterações que Vila Franca tem sofrido ao longo dos anos, desde a sua infância, Francisco Rodrigues Pereira mostra-se pouco positivo, notando que a sua terra natal tem perdido terreno relativamente a outras localidades da mesma dimensão, como Loures, por exemplo, que hoje detém um maior número de habitantes, infraestruturas e qualidade de vida.

“Loures era uma aldeia, mas hoje mete Vila Franca num sapato”, afirma. E explica os motivos que levaram Vila Franca a não conseguir acompanhar a evolução: “A Vila Franca de hoje é um local de passagem, dantes era um local de destino. O facto de as sucessivas Câmaras Municipais não terem dado importância ao ordenamento urbanístico e à qualidade de vida, fez de Vila Franca uma terra feia em que as pessoas passam e pensam que é só esta rua comprida”; e acrescenta: “E também perdeu a capacidade de fixação da população e dos residentes aderirem aos lazeres. Os hábitos e o dinheiro das pessoas terem mudado são factores que se deve ter em conta: se há poucas casas abertas à noite para as pessoas irem, as pessoas não saem; se não há pessoas, não há casas abertas. Uma coisa implica a outra. Além da vida profissional que se tornou mais exigente, mais trabalhosa, mais competitiva. As pessoas dantes tinham outra disposição e outra disponibilidade para os lazeres diários. Hoje, há dias específicos para esses lazeres porque eles são impossíveis nos dias comuns”.

Quanto à tauromaquia do seu coração, Francisco Rodrigues Pereira considera que os programas anti-taurinos dos partidos não são honestos e que “são degraus que as pessoas usam para subir e projectar-se, porque prometem luta política. É um degrau diferente de, por exemplo, ter pena dos peixinhos que morrem asfixiados quando os pescadores os tiram da água, que não promete luta política”, esclarece. E acrescenta: “O toiro bravo é criado unicamente para este fim. No dia em que desaparecerem as corridas de toiros, só vamos ver toiros bravos nos Jardins Zoológicos. O toiro bravo como espécie desaparece”.

Do ambiente taurino vila-franquense lembra o tempo em que não havia dias de tauromaquia, mas que esta se vivia todos os dias: “No tempo em que não havia transmissões das corridas de Espanha na televisão, estávamos no Café Central, ao fim da tarde, à espera dos telegramas para sabermos o que é que se tinha passado em Madrid”, recorda, embora descrente que esse ambiente possa ser recuperado, já que “o mundo não volta atrás”.

O tempo determina mudanças: hábitos, rotinas, modos de vida; desapareceu o local de destino, ficou o local de passagem. E como no posfácio de O Negresco, “ficou um outro tempo.

Entrevista: Sofia T

Fotografia: Jorge Figueira

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