Maria João Luís: “Andamos todos muito dispersos e a dispersão faz-nos perder tempo”

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Habituada a pisar os palcos, vai já para uns trinta e poucos anos, de presença forte e voz possante, Maria João Luís volta à terra em que viveu a meninice e adolescência. Vem com a companhia de teatro – Teatro da Terra de Ponte de Sor, que fundou em conjunto com o marido – fechar as comemorações dos dez anos do Museu do Neo-Realismo e traz-nos de presente a peça Finisterra de Carlos de Oliveira.

Maria João Luís, que ainda há pouco víamos na telenovela da SIC Amor Maior, vai estar em cena até ao final de Janeiro com obras de autores neo-realistas. Agora com a peça Finisterra de Carlos de Oliveira, depois Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, que será levada ao Teatro da Trindade.

A peça, que vai estar no Ateneu Artístico Vilafranquense, já este fim-de-semana,  e nos dias 4 e 5 de Novembro, em Ponte de Sor, é uma co-criação de Maria João Luís e Mickael de Oliveira e promete revelar aos espectadores uma teoria “nem literária, nem espiritual” que lhes permita ganharem tempo de vida.

Entre momentos de ensaios no Ateneu, no ambiente neo-realista de Carlos de Oliveira misturado com o deste Gaibéu, cujo nome lembra Alves Redol, a actriz falou-nos de teatro, cinema, televisão e da sua ligação à nossa terra.

 

  • Como é voltar a Vila Franca de Xira depois de tantos anos?

É muito bom. Tenho muito boas memórias e gosto muito de Vila Franca. Vivi aqui momentos muito felizes da minha vida, tanto na infância como na adolescência, como no início da idade adulta… Tenho aqui grandes memórias e todas elas, curiosamente, bastante felizes. Foi uma altura bastante feliz da minha vida.

 

  • Esta é a primeira vez que cá vem com uma peça de teatro? 

Eu fiz teatro aqui quando era miúda e fiz ainda nos Esteiros, em Alhandra.  Depois, aqui em Vila Franca, num pequeno grupo formado por malta amiga que queria fazer coisas… Com o teatro profissional, vim com a Barraca e a Malaposta, acho que já a este espaço do Ateneu, e agora. Não é a primeira vez, é, talvez, a terceira.

 

Há uma espécie de corrida que fazemos hoje na nossa vida, em que não temos tempo para olhar, não temos tempo para ver, não temos tempo para nada.

 

  • Com Finisterra vamos aprender a ganhar mais tempo de vida. Como é que a obra de Carlos Oliveira a fez perceber que há uma forma de ganhar esse tempo?

Basicamente há uma explicação que é dada durante o espectáculo relativamente a isso. Há uma espécie de corrida que fazemos hoje na nossa vida, em que não temos tempo para olhar, não temos tempo para ver, não temos tempo para nada. A não ser para correr atrás daquilo que nos permite sobreviver, que é o dinheiro. A própria forma como o Carlos de Oliveira escreve, e que está também no difícil discurso desta obra Finisterra, e o facto de termos de ler este livro com uma atenção redobrada para o conseguirmos interpretar – que será sempre à nossa maneira, porque ele ainda por cima é muito aberto – faz com que haja um lado de tempo que é preciso ganhar. Precisamos de ganhar tempo para o podermos ver e interpretar, que é o que não se tem. É um bocadinho nesse sentido, e noutros… É preciso ver o espectáculo para se perceber exactamente quais são os outros, mas este é um deles. Não nos podemos dispersar. Andamos todos muito dispersos e a dispersão faz-nos perder tempo.

Cartaz de Finisterra de Carlos Oliveira

 

  • A peça conta com a participação da fadista Aldina Duarte, de actores do concelho de Vila Franca e do ilusionista Rovit. Pode explicar em que é que consistem essas participações ou é para ficar no segredo dos Deuses?

É surpresa, sim, mas basicamente faz tudo parte da ilusão, da magia. Nós estamos a fazer um espectáculo onde estamos a usar um ilusionista e onde a ilusão é constante desde o início até ao fim. É um espectáculo de ilusão e de magia, no qual, inclusive, prometemos uma viagem ao público, no final. Uma viagem por esse mundo mágico…

 

  • A Maria João Luís e o seu marido criaram e dirigem o Teatro da Terra – co-produtor desta peça – em Ponte de Sor. Porquê criar uma companhia teatral em Ponte-de-Sor e não cá, em Vila Franca, por exemplo?

A ideia de fazer isto em Ponte de Sor foi também porque nós tínhamos um monte lá, tínhamos uma casa e pensámos em ir viver para lá. Fomos viver para Ponte de Sor primeiro e depois é que surgiu a ideia do projecto. Tínhamos lá aquele teatro [Teatro Cinema de Ponte de Sor] com pouca actividade destas coisas teatrais e achámos que talvez pudéssemos desenvolver ali um projecto. Falámos com a Câmara Municipal, houve abertura na altura para isso e fizemos.

 

Como trabalhamos aqui com o grupo dos amadores, também fazemos isso lá com orquestras ligeiras, corais polifónicos, alunos dos cursos de expressão dramática…

 

  • Como tem estado a correr a experiência?

Tem sido muito agradável. Nós temos um projecto que é muito bem aceite pela comunidade. Aliás, nós fazemos muito trabalho com a ela. Como trabalhamos aqui com o grupo dos amadores, também fazemos isso lá com orquestras ligeiras, corais polifónicos, alunos dos cursos de expressão dramática… Fazemos um trabalho muito interactivo com as pessoas da comunidade. Às vezes, há peças que não tanto, mas quase todas elas têm essa vertente.

 

  • E dão formação.

Fazemos trabalho mesmo nas escolas e nos cursos de expressão dramática e damos formação aos actores amadores que trabalham connosco e que vão prosseguindo. Por exemplo, esta menina, a Sónia, é de Ponte de Sor. É a nossa assistente – está a estagiar connosco – está já no curso de Teatro em Évora. Portanto há pessoas que começaram connosco, ainda no Secundário, e depois apaixonaram-se por isto e já estão connosco a seguir caminho.

 

  • Este trabalho com o Museu do Neo-Realismo é para continuar? Vamos poder vê-la actuar aqui mais vezes?

Eu espero que sim. Tenho sempre a esperança que as coisas possam ter sequência. Tudo depende das vontades políticas e dos dinheiros, não é? Vamos ver. Por mim, estou aberta a continuar. Nós temos um projecto em mãos para apresentar, mas vamos ver qual vai ser o feedback. Eu gostava muito.

Sempre ouvi falar dele [do Ildefonso Valério] e depois conheci-o aqui em Vila Franca e é uma pessoa que sempre foi uma referência para mim nestas lides teatrais.

 

  • Mas vão fazer a peça a partir de Soeiro Pereira Gomes, que era de Alhandra?

Sim, vamos fazer já a seguir, mas não é com a Câmara de Vila Franca, é com o Teatro da Trindade, em Lisboa.

 

  • Estudou Artes Visuais na Escola António Arroio, como muitos vila-franquenses da mesma geração. Quando e porque é que se dá o salto das Artes Visuais para o Teatro?

Eu estava num curso que era de artes que eu achava que era a minha vocação, mas não percebia bem o que é que eu queria fazer dentro das artes. Depois percebi rapidamente que não tinha talento nenhum para pintar nem para desenhar, nem para fazer coisas dessas e que só podia fazer o que já fazia antes.

 

  • Chegou a trabalhar com o Ildefonso Valério na Cegada Grupo de Teatro?

Não, nunca trabalhei com ele. Conheci bem o Ildefonso, porque éramos amigos e inclusive há a coincidência de ele ser da terra da minha mãe, da Atalaia. A minha mãe era dos Quentes que era uma terra ali ao lado. Sempre ouvi falar dele e depois conheci-o aqui em Vila Franca e é uma pessoa que sempre foi uma referência para mim nestas lides teatrais.

 

  • Começou por dizer poesia?

Sim, eu comecei por fazer performance, sobretudo. Eu dizia poesia em família. Havia esse hábito de, nos Natais, o meu pai cantar o fado e eu dizer um poema ou dois. Havia essa coisa da festa e da família que depois se foi perdendo ao longo do tempo. Eu estava muito habituada a isso e depois, quando fui para a António Arroio, sim, fazia muita performance, muita arte de rua com poesia – quase sempre com poesia – e com outras coisas que se criavam.

O que eu procuro é passar, através daquilo que é minha energia, a minha presença, o meu estado emocional – e depois também através da palavra – o que quero comunicar

 

  • O teatro precisa tanto da beleza das palavras quanto a poesia? 

A palavra é uma das coisas que faz parte do teatro e da comunicação. Embora possa muitas vezes ser quase distractiva daquilo que é o essencial. Aquilo que nós trabalhamos sobretudo – e aquilo que eu trabalho sobretudo – é a palavra enquanto quase “objecto”. O que eu procuro é passar, através daquilo que é minha energia, a minha presença, o meu estado emocional – e depois também através da palavra – o que quero comunicar, ou que me proponho a comunicar, porque nem sempre acontece. Mas isso, só com a palavra, também não acontece.

 

  • Faz cinema, televisão e teatro. O que a estimula em cada uma destas três artes? Porque há diferenças, não há?

Sim, há diferenças, embora haja uma coisa em comum que sou eu enquanto o motor da acção. Gosto muito mais de fazer teatro e televisão do que fazer cinema. E isto não tem nada a ver com a arte do cinema ou com o cinema em si… Como normalmente o cinema envolve muito dinheiro, porque são produções que precisam de muito dinheiro, há uma pressão durante a rodagem e uma tensão nas pessoas que eu acho que muitas vezes é contraproducente para o trabalho final. E não gosto de me sentir sob essa pressão.

 

  • E que o teatro não tem?

Há a pressão, mas temos mais tempo e trabalha-se as coisas de uma outra maneira… Eu prefiro teatro e televisão, apesar de tudo.

 

  • O que é que sente que recebe, enquanto pessoa, de cada uma destas três artes?

Há um retorno enorme, senão não fazíamos isto. É tão cansativo e às vezes tão duro que tem de haver um retorno muito grande. E depois há aquilo que nos leva a fazer. Porque é que fazes? Fazes porque não tens outra maneira de estar, porque não consegues fazer outra coisa. É isso que recebes, o retorno é esse. É quase uma inevitabilidade.

Eu costumo dizer que aquilo que eu ganho é tempo de vida, porque quando estou a representar não sou eu que estou lá. Portanto o tempo não me apanha.

 

  • O actor, por encarnar várias personagens, torna-se mais conhecedor de si próprio?

O termo “encarnar” é muito engraçado no caso do actor. Sim, e não está longe da verdade. O actor encarna outros corpos, outras vidas, outras pessoas que o usam, ou que são usadas, e que ele usa para o resultado de uma exposição para os outros. Eu costumo dizer que aquilo que eu ganho é tempo de vida, porque quando estou a representar não sou eu que estou lá. Portanto o tempo não me apanha.

 

  • Como entrou a encenação na sua vida?

Isto começa tudo com a performance. Tudo aquilo que fazemos na nossa vida, na arte performativa, no fundo é uma construção, portanto é também uma encenação. É um bocadinho por aí… E já faço isso há muitos anos. E depois isso passou a ser uma coisa que me apeteceu fazer mesmo: criar um espectáculo maior, grande.

 

  • A Ilha foi uma peça que esteve no Teatro Cinema de Ponte-de-Sor e que teve como tema os refugiados sírios. Parece-lhe importante trazer problemas sociais e humanos para o teatro?

É fundamental, acho eu, é um dos nossos papéis. Nós vivemos numa sociedade muito incompleta, muito imperfeita, muito medonha às vezes, num momento histórico particularmente sensível com variadíssimas questões: climatéricas, sociais, políticas, a quantidade de disparidades que existem entre as pessoas, entre os povos. Temos um mundo dominador que é para aí um terço da população mundial. Se calhar é um número muito menor, nem sei… E o resto é uma gente que sabemos lá nós quem são e o que é que fazem; o que é que pensam; o que é que sentem, porque nem sequer têm acesso a nada. Está aqui muita coisa para se fazer, para se falar e se tratar. É um mundo muito imperfeito.

 

  • O teatro, e as artes em geral, podem ajudar a mudar mentalidades e a abrir os horizontes dos espectadores?

Têm vindo a fazer isso ao longo da História.

 

  • Tem feito muitas telenovelas… Está a fazer alguma neste momento?

Neste momento, não estou fazer nenhuma. Faço para o ano.

 

  • A telenovela pode ter esse papel importante na mudança de mentalidades e na educação dos povos?

Eu penso que sim. É um produto que é visto por muita, muita gente. É precisa muita atenção na construção dos textos, na escolha dos temas, mas penso que pode ter um papel muito importante, quando é bem feito. Quando é mal feito é uma chatice!

 

  • Quais são os próximos projectos?

Vou fazer Esteiros, do Soeiro Pereira Gomes, já para a semana. Estreio esta peça e, para a semana, já estou a arrancar com a outra para estrear em inícios de Janeiro. Vai ficar o mês de Janeiro em cena. Televisão só para Maio do ano que vem.

 

  • Telenovela ou série?

Telenovela, mas ainda não sei mais nada.

Entrevista: Sofia T

Fotografia: Helder Bento

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