Viagem ao Mundo da Ópera com Marco Alves dos Santos

Gaibéu
Seguir

Gaibéu

O Gaibéu é um filho ilegítimo.
Nasceu do amor à escrita, ao jornalismo e à cultura das gentes e da terra.
Gaibéu
Seguir
Apresentou o “Ciclo de Conferências: Ópera é isto!”, realizado, em Setembro e Outubro do ano passado, na Fábrica das Palavras, em Vila Franca; já foi príncipe, conde, cavaleiro, poeta e bruxa, entre muitas outras peles que vestiu em palco. Vive enamorado e é solista profissional. É o tenor Marco Alves dos Santos 

Marco Alves dos Santos mora desde sempre em Vila Franca de Xira e, como o próprio refere, nasceu há aproximadamente 35 anos a uma taxa de 23 % de IVA, ou seja, há cerca de 42 anos. Entrou de cabeça para o mundo da música aos dez, quando a mãe o inscreveu no Instituto Gregoriano de Lisboa a conselho de um professor de música cego com um ouvido tremendo. Passou pelo piano e pelo trompete, mas veio “aterrar” no canto lírico, em que, mais tarde, se profissionalizou.

Estudou canto no Conservatório Nacional, na Guildhall School of Music & Drama, em Londres (como bolseiro da Fundação Gulbenkian) e iniciou a sua carreira como solista profissional em 2003, nos Jeunes Voix du Rhin (Opéra National du Rhin-França), integrado num programa de jovens intérpretes.

Passou por coros como o Notas Soltas (Vila Franca de Xira), o Lisboa Cantat, o Coro de Câmara Syntagma Musicum, ou o Coro da Fundação Calouste Gulbenkian. Actuou nas salas do CCB, Casa da Música, ou do Coliseu do Porto, mas prefere ser encontrado no Teatro Nacional de São Carlos (TNSC) porque, além de ser a casa da ópera, não é um espaço remodelado e mantém a aura antiga, onde é praticamente tudo feito à mão: “Estar no palco e nos bastidores do TNSC é fazer uma viagem de 200 anos”.

O cantor lírico conta um pouco do seu percurso profissional e abre as portas do seu principado, o mundo da ópera.

Faça o favor de embarcar nesta viagem pelo extraordinário mundo da ópera!

 

  • Iniciou a sua carreira como solista profissional, em 2003, há treze anos, na Opéra Nacional du Rhin – França, interpretando o Tamino na Flauta Mágica (Mozart), o protagonista. Como foi começar a carreira logo interpretando um príncipe?

Normalmente, os papéis são assim… Sim, interpretei o Tamino na Flauta Mágica em Estrasburgo (pode dizer-se que foi o meu primeiro grande papel de repertório) e depois cá em Portugal. Cá, num projecto do Teatro Nacional de São Carlos para crianças, em português.  As óperas, geralmente, dividem-se por dois, três, quatro protagonistas de diferentes vozes para criar o contraste. Habitualmente, atribuem-se os papéis dos amorosos ao soprano e ao tenor e do vilão ao barítono. Aliás, o Bernard Shaw tem uma expressão muito engraçada da definição de ópera que é: “A ópera consiste num drama amoroso entre um soprano e um tenor, com um barítono que vem estragar tudo”.

Mas nem sempre é assim…

 

  • Normalmente interpreta o enamorado?

O enamorado, o amor rejeitado ou o amor impossível consoante a época da história. Por exemplo, no período clássico temos os jogos teatrais de amor; na ópera cómica, é comum encontrarmos dois pares de amorosos que, por algum motivo, se trocam, como na Così Fan Tutte do Mozart, ou o casamento entre os dois amantes que tem de ser secreto, como no Il Matrimonio Segreto do Cimarosa; e depois, mais tarde, mais para o período do romantismo, vem o drama do amor impossível e aquelas óperas em que morre toda a gente no fim; e em Wagner, o amor quase platónico como no Tristan und Isolde.

Costumo dizer por brincadeira que, se eu fosse um actor de Hollywood e concorresse aos Oscars, concorria não para o Oscar de actor principal, mas para o de actor secundário.

 

  • Já interpretou o papel de Tristão? Um Tristão diferente…

Sim, um Tristão diferente, em Le Vin Herbé, no Teatro Aberto. Foi uma das primeiras produções que fiz quando cheguei a Portugal. Fui um Tristão diferente, na lenda do Tristão e Isolda normal, mas numa composição posterior à do Wagner, de Frank Martin, uma vez que a minha fisicalidade nunca me dará para fazer um Tristão do Wagner, pois são precisos cantores com vozes e corpos muito maiores para aguentar esse tipo de repertório.

 

  • Que tipo de personagem gosta mais de fazer dentro dos vários géneros de ópera?

Gosto muito de fazer ópera cómica, mas também papéis mais dramáticos. Gosto especialmente de papéis secundários, porque como o papel principal das óperas de repertório já foi muito dissecado a nível psicológico e toda a gente já o conhece, o personagem secundário não está tão condicionado e dá uma liberdade de interpretação muito maior do que o do personagem principal. Agrada-me não estar condicionado nesse aspecto. Costumo dizer por brincadeira que, se eu fosse um actor de Hollywood e concorresse aos Oscars, concorria não para o Oscar de actor principal, mas para o de actor secundário. Muitas vezes este papel exige muito mais porque não canaliza essa espécie de perfil psicológico de protocolo, mas uma coisa totalmente fora daquilo que é vulgar.

Fi-lo, há uns anos, no Teatro de São Carlos, onde interpretei Prunier, em La Rondine de Puccini, que é um elemento do casal suporte do casal principal, e que me permitiu esse género de criatividade que não está dentro dos trâmites e do protocolo fechados.

Marco Alves dos Santos como Prunier numa Reportagem RTP – La Rondine (TNSC – Temporada 2011/12) – YouTube TNSC 

 

  • Qual foi a personagem que mais gostou de interpretar?

Gostei muito do Prunier, pelo que acabei de dizer e por ser, provavelmente, o personagem com o perfil psicológico mais parecido com o meu. Quando comecei a trabalhar esse personagem, no primeiro ensaio com o Maestro João Paulo Santos, um dos directores musicais do TNSC que prepara os cantores, ele disse-me: “Não te vou dar nenhum background do personagem, porque psicologicamente o Prunier és tu”; e começámos logo a trabalhar o personagem, porque me identifiquei imediatamente com ele.

Outro personagem que gostei de interpretar foi a bruxa do Hänsel und Gretel que é um personagem que pode ser interpretado tanto por uma mulher (mezzo-soprano) como por um homem, e que também me deu imenso gozo.

Mais recentemente, no Crato, o Conde de Almaviva no Barbeiro de Sevilha que é uma ópera de Gioachino Rossini de que gosto muito. Rossini está para a ópera, assim como os Monty Python estão para a comédia.

 

Subscreva a nossa newsletter

 

  • Que já acabou…

Sim, infelizmente, já. Se calhar um dia fazemos outra vez…

 

  • Normalmente, os espectáculos duram pouco tempo?

Sim, a ópera em Portugal tem uma dinâmica um bocado diferente de nos outros teatros lá fora ou de noutros espectáculos. Por exemplo, os espectáculos de musicais ou peças de teatro, normalmente têm umas temporadas grandes, enquanto que a ópera não, por vários motivos. Em primeiro lugar, por questões logísticas do teatro… O TNSC, que é o único teatro de ópera em Portugal, não tem as capacidades técnicas e logísticas de outros teatros no estrangeiro que conseguem ter duas, três produções consecutivas. E creio que, às vezes, também há alguma falta de ambição, de visão, não só por parte dos agentes do meio, mas também dos agentes que decidem o meio.

É um mito essa ideia de o público de ópera ser elitista.

 

  • Os espectáculos de ópera têm público? E é um público variado?

Têm, há muito público. É um mito essa ideia de o público de ópera ser elitista. Evidentemente que a ópera não é um estilo fácil de aprendizagem, tal como o jazz, mas não me podem dizer que o jazz é elitista, porque não é, o jazz está na rua, tal como a ópera, tal como todas as formas de arte, desde o juggling circense até à erudição da Gulbenkian com concertos na rua. Por exemplo, o Festival ao Largo do Teatro Nacional de São Carlos ter mais gente na rua é impossível.

No TNSC, nos últimos tempos, temos tido constantemente, nas óperas de repertório e em algumas que fogem um bocado ao repertório e que ainda se estão a tentar introduzir no repertório, récitas esgotadas. Não direi todas, mas temos uma taxa de ocupação largamente superior a cerca de 70 a 80%.

O que é que queremos fazer da cultura para o futuro? É mais isso do que achar que determinado estilo está à beira da extinção.

 

  • O público vai-se renovando ou acaba por ser praticamente sempre o mesmo?

É evidente que o público culto demora a formar e que um espectáculo como a ópera precisa de um público já com alguma formação, mas não é preciso ser nenhum entendido na matéria para se ir ver ópera. Há, não só, um público que frequenta normalmente o teatro, mas também um outro público que vem por curiosidade. A faixa etária será sempre mais adulta, no entanto os programas infantis e juvenis, que os teatros começaram a desenvolver há cerca de dez anos, têm trazido mais gente e gente mais jovem. Penso que não faltará público à ópera, tal como não falta público aos espectáculos culturais neste país.

 

  • Será, então, um problema de dinâmica as temporadas serem curtas?

Sim, talvez de dinâmica, de logística e de visão para o futuro… O que é que queremos fazer deste espectáculo para o futuro? Assim como dos outros todos? Do teatro, da cultura em geral? O que é que queremos fazer da cultura para o futuro? É mais isso do que achar que determinado estilo está à beira da extinção. Isso não é verdade, de todo! Se formos ao Out Jazz, que é feito nos jardins de Lisboa, está apinhado de gente; se formos ao Festival ao Largo, não cabe lá mais ninguém, só às cavalitas. Portanto, há público!

 

  • O que é preciso para se ser um bom solista?

Debato-me com algumas pessoas que ainda acham que para se ser um artista lírico profissional, um solista, é ter aulas de canto e já está. Não é de todo assim! Ter aulas e uma boa técnica de canto é crucial, mas depois falta tudo o resto. Falta o carisma, a interpretação, a construção do perfil psicológico do personagem, a técnica de movimento, as técnicas de combate em cena, a técnica para morrer em cena e todo um conjunto de coisas que ajudam a essa credibilidade em palco.

Não se faz um artista em seis meses em Londres, depois de um concurso televisivo. Isso é uma falácia!

As pessoas, quando vão ver uma ópera, querem sentir o drama e isso não se consegue só com uma bela voz. Como um maestro, meu tutor no Conservatório, dizia, uma frase que é já um clássico no meio lírico em Portugal: “Vozes boas, há-as na apanha da fruta”. E é verdade. Após vinte anos de concursos televisivos de karaoke, pode dizer-se que em Portugal se canta bem. Agora, falta tudo o resto. Não se faz um artista em seis meses em Londres, depois de um concurso televisivo. Isso é uma falácia! Eu até gostava que houvesse reality shows de talento, mas de carpinteiros, de electricistas, de toda uma parafernália de profissões, para as pessoas perceberem que não se forma um profissional em três ou seis meses. Demora muitos anos. É preciso investir numa palete de ferramentas, porque hoje em dia já não há muito tempo para ensaiar. Os períodos de ensaio são cada vez mais curtos; às vezes a programação chega em cima da hora; tem que se estudar os papéis e encenar muito rápido. Por isso, tem que se ter todo esse conjunto de ferramentas que permitam chegar a um ponto de execução e de entrega credível ao público num curto espaço de tempo. Não se pode, por exemplo, ir aprendendo sobre movimentação, à medida que se está a fazer um papel em palco. Já se tem que saber isso.

Às vezes dizem-me: “O Marco é extremamente credível em palco”. Mas isso não acontece por acaso, as pessoas não são credíveis por acaso. (Eu costumo dar exemplos do futebol porque, às vezes, é a única linguagem que as pessoas percebem neste país). Por exemplo, não basta só dar toques de bola – toques de bola, muitos dão – é preciso ter sentido de posicionamento, técnicas para defender, técnicas para atacar, saber qual é o seu papel, ter uma boa noção de espaço. Além dos toques de bola, conseguir correr em velocidade, etc… E isso demora muitos anos a trabalhar. No canto, é exactamente igual, aliás, como em qualquer outra profissão. Toda esta matéria, e ferramentas, é preciso trabalhar. É por isso que estudamos quatro anos para um curso superior; é por isso que se fazem estágios de um ano em que se trabalha muito a movimentação em palco…

Percebe-se a utilidade disto tudo, quando, anos mais tarde, se está em palco, e se teve só uma ou duas sessões para preparar uma cena, e tem que se valer destas ferramentas, porque não há mais tempo para se estar a depurar as coisas. Até porque hoje os encenadores não se dedicam só à encenação, mas também dedicam muito tempo à parte da estética. Na minha opinião, às vezes, até tempo demais. Como actor/cantor, tem de se ter já tudo isso intrínseco. Não queremos um pinheiro, ou um mono, em palco, com uma voz muito boa, mas sem expressão absolutamente nenhuma.

Se eu quiser ouvir uma voz muito boa, compro um CD, sento-me em casa e oiço. Quando vou ver uma ópera, quero ver um espectáculo na sua globalidade. Quero ouvir cantar bem, mas também quero acreditar que quando aquela pessoa está a sofrer, está mesmo a sofrer e não está só a dizer que está a sofrer.

A ópera é um espectáculo total (…) Por isso, é um espectáculo fora do comum, por não ser limitada a um determinado grupo só de instrumentistas ou só de cantores… É tudo em um. Inclui a pintura, a escultura, a carpintaria, a estética…

 

  • Sendo a ópera uma junção da música e do teatro, o que transmite às pessoas que o teatro e a música, em separado, não conseguem transmitir?

A música com palavras é muito mais directa, sabe-se do que é que a pessoa está a falar, sabe-se qual é o sentimento que se está a exprimir. A música instrumental presta-se a mais interpretações, exactamente por não ter a palavra.

Na música pictórica, que define algo, por exemplo nos Quadros de uma Exposição do Mussorgsky, em que o nome dos quadros vai aparecendo e se vão identificando as melodias, tem de se fazer o percurso na mente para se poder visualizar. Na ópera, isso também acontece à medida que as ópera vão atingindo uma profundidade dramática maior. Por exemplo, no Tristão e Isolda, que é uma peça muito filosófica, também há esses passos das interpretações, no entanto, há a palavra que condicionará sempre o que é a ópera e que guiará as pessoas juntamente com a música.

A música na ópera começou por apenas acompanhar o cantor, para depois se tornar em algo independente do cantor. Por exemplo, exprime-se uma emoção através do canto e a orquestra exprime a emoção contrária em simultâneo, ou então ajuda a reafirmar essa emoção.

A ópera é um espectáculo total, no sentido em que engloba estas variantes todas. Por isso, é um espectáculo fora do comum, por não ser limitada a um determinado grupo só de instrumentistas ou só de cantores… É tudo em um. Inclui a pintura, a escultura, a carpintaria, a estética…

 

É essa a minha função, uma prestação de serviços de sentimentos através de uma história, servir uma palete de sentimentos bons ou maus a uma plateia. No fundo, em palco, nós somos uns vendedores de emoções.

 

Em relação a este assunto sobre a utilidade da ópera ou uma actividade de palco, um professor que tive em Estrasburgo disse que, no fundo, a sua função era “servir sentimentos às pessoas”.

Numa sociedade que, cada vez mais, é desprovida do acto de sentir, a ópera (ou outro espectáculo de palco) faz isso mesmo, que as pessoas paguem para nós as fazermos sentir qualquer coisa. É essa a minha função, uma prestação de serviços de sentimentos através de uma história, servir uma palete de sentimentos bons ou maus a uma plateia. No fundo, em palco, nós somos uns vendedores de emoções.

 

  • Parece-lhe que as pessoas gostam e entendem a ópera?

Sim, há pessoas que vão à ópera porque gostam e entendem, outras vão porque gostam e, depois, há aquelas pessoas que vão por mera curiosidade.

(continua → 1  2  3)

Comentários

Comentários

Gaibéu

O Gaibéu é um filho ilegítimo. Nasceu do amor à escrita, ao jornalismo e à cultura das gentes e da terra.

One thought on “Viagem ao Mundo da Ópera com Marco Alves dos Santos

  • 26 Janeiro, 2017 at 16:55
    Permalink

    Grande Artista, Grande Cantor e Intérpetre muitas vezes sem o valor devido pelos seus conterrâneos mas nunca esquecido por quem aprecia artes.

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

8 − 1 =