Ela merece os murros que leva

Ana Paes
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"Coração maior, gosta das manhãs. Irrita-se com a incompetência, mas dedica a sua vida a acabar com ela. Tira, dos sorrisos das crianças, a força que a faz levar tudo à frente. Correcta, honesta, franca, de sorriso fácil. Quem a conquista, jamais a perderá." - SUSANA DINIZ

Ana Paes é educadora de infância e professora de música.
Escreve também aqui: Os filhos dos outros
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“Nada mais ouvi. Do lado de lá solta-se um pontapé direito à minha cara. Era o fim. O meu fim. Estendida no chão, nada mais ouvi. Nada se sente. Só dor. Uma dor que ultrapassa o físico e se instala na alma. Uma dor única. Sente-se o coração a ser arrancado a sangue frio e jogado no chão. Espezinhado. Sente-se o vazio. Desilusão. Vontade de nada. Sem gritos. Sem histerismos. Nada. Só o som seco dos pontapés a bater nas costas. A cabeça que bate na parede. O som de mais uma estalada. E outra. E outra. E outra.”

Esta é a realidade de muitas mais mulheres do que aquelas que arriscamos dizer que conhecemos. Esta é a realidade que temos na porta ao lado e da qual nem damos conta ou fazemos por não dar. Mas parece que algumas merecem. Dizem. E o pior é que a maioria acha mesmo que merece esse tratamento. Porque se atrasa a fazer o jantar. Porque gosta de sair com as amigas. Porque tem opinião. Porque gosta de dar gargalhadas. Porque teve o azar de ter nascido mulher. Homem pode. Mulher nem tanto.

Somos todos muito “moderninhos” da boca para fora, mas, na prática, continuamos a criticar a mulher que arrisca ter opinião. Comentamos as saídas à noite, os amigos, as bebedeiras, a casa desarrumada.

Somos todos muito defensores da igualdade, mas, se ele lhe bateu, alguma razão tinha. E se não tinha e ela continua com ele, é porque gosta de apanhar. Como se a vida fosse toda ela pintada a preto e branco, numa tela sem vida própria.

Mas continuamos todos a ter muitas certezas, continuamos todos a ser muito sábios e conhecedores da verdade, continuamos todos a ser muito “moderninhos” da boca para fora. Continuamos a viver numa sociedade machista, sim. Demasiado.

Queremos tanto ser diferentes que nos esquecemos que, na realidade, somos todos iguais nas nossas diferenças.

E enquanto a saia curta da outra vos incomodar, as bebedeiras que ela apanha vos horrorizar e os homens com quem ela se deita vos causar insónias e servirem de desculpa para mais uma estalada, mais um pontapé, mais um empurrão para o abismo, nunca teremos uma sociedade verdadeiramente igualitária e livre para assumir as escolhas de cada um.

“Sofri como não me lembro de merecer. Chorei. Chorei bem mais do que julguei ser capaz e senti-me tão sozinha como só uma alma perdida e desamparada na sua própria solidão se pode sentir, mas estou cá. Eu estou cá, pronta para ser livre do vosso preconceito. Pronta para ser simplesmente, mulher!”

Imagem: Pixabay

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“Coração maior, gosta das manhãs. Irrita-se com a incompetência, mas dedica a sua vida a acabar com ela. Tira, dos sorrisos das crianças, a força que a faz levar tudo à frente. Correcta, honesta, franca, de sorriso fácil. Quem a conquista, jamais a perderá.” – SUSANA DINIZ

Ana Paes é educadora de infância e professora de música.
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