Com Bárbara no horizonte…

Entrevista exclusiva a Bárbara Guimarães

De olhos postos no horizonte, o Gaibéu chegou à Lezíria.

No início de uma tarde de domingo, em que o frio de Novembro se começava a fazer sentir e a chuva intercalava com um sol que espreitava tímido por entre as nuvens, o Gaibéu chegou a uma Companhia da Lezírias movimentada. À azáfama da final do XVII Campeonato Nacional de Equitação de Trabalho, juntava-se a das gravações do programa televisivo Peso Pesado Teen.

Com hora marcada para o meio-dia, fomos encontrar a nossa entrevistada na maquilhagem. De olhar fixo no tecto para que o maquilhador lhe pusesse o rímel nas pestanas. A luz da grande janela de um camarim improvisado iluminava-lhe o rosto que todos conhecemos da televisão. Recebeu-nos com um sorriso que transpira simpatia. Aquela mesma simpatia que estamos habituados a ver na Bárbara Guimarães dos ecrãs.

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Faltavam-nos as fotos para completarmos a entrevista que nos dera uns dias antes e Bárbara disponibilizou-se naquele domingo para que pudéssemos ter a Lezíria como fundo.

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A conversa com Bárbara Guimarães permitiu-nos conhecer o lado humano da estrela dos ecrãs da televisão portuguesa. Pedimos que nos falasse um pouco da experiência no Peso Pesado Teen e da sua relação com o Ribatejo. Quisemos saber como foi filmar em plena Lezíria e como tem sido o trabalho com estes jovens que enfrentam uma batalha tão dura como a de ter de emagrecer dezenas de quilos em pouco tempo, quando têm, simultaneamente, de lidar com a sua aparência numa fase tão importante do crescimento como é a adolescência…

Enfim, quisemos conhecer um pouco mais desta pessoa dentro da grande comunicadora e apresentadora de televisão.

  • Neste momento, a Bárbara está a apresentar o “Peso Pesado Teen” e muitas gravações realizam-se na Herdade da Companhia das Lezírias. Como tem sido a experiência de gravar nesta herdade ribatejana?

Fiquei muito agradada com o facto de passar a Ponte Vasco da Gama, que é uma ponte que eu adoro, porque para mim significa sempre férias, ou idas para a praia. Aquela ponte tem o verbo “ir”, “partir” dentro dela.

Quando vim a primeira vez à Companhia das Lezírias conhecer aquele espaço, estávamos em pleno mês de Agosto, estava um calor imenso, mas ao mesmo tempo os fins-de-tarde eram lindos de morrer! Portanto, acaba sempre por ser uma partida para um sítio onde eu me sinto muito bem e onde gosto de estar.

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Fiquei também muito agradada ao saber que os concorrentes iam viver estes cinco meses e meio em bungalows, com uma vida muito saudável, muito virada para o desporto e para o campo. Praticamente todos os desafios são passados dentro da herdade ou perto, em barragens, por exemplo… Dá para ter ali um conhecimento do Ribatejo, mais profundo do que o que eu tinha, embora seja uma adepta da sopa da pedra há muito tempo e muitas vezes me desloque, de propósito de Lisboa, só para ir almoçar a sopa da pedra a Almeirim.

  • E como tem sido o facto de gravar ao ar livre (com todas as condicionantes atmosféricas)? Dificulta o trabalho ou são questões fáceis de contornar?

É super saudável! Mesmo debaixo de chuva - já aconteceu - … E lama também… É uma oportunidade de fazer uso das galochas (risos) e no fundo também faz parte da natureza acontecerem dias assim. E logo no dia a seguir estar um sol maravilhoso a brilhar e estarmos a gravar outra vez.

  • Já tinha tido, anteriormente, alguma ligação a esta região? Conhece bem o Ribatejo?

Já. Há cerca de um ano e tal que faço ski aquático ali em Coruche e tenho vários amigos lá e na zona de Santo Estêvão. Portanto, já tinha tido um contacto com o Ribatejo, assim já bastante próximo. Isto só veio alargar ainda mais o horizonte do que esta zona tem para nos oferecer.

  • O que aprecia mais e menos nesta região?

Acho a paisagem muito bonita, gosto das barragens, das represas, do rio. Há zonas fantásticas para se tomar um bom banho no rio… Gosto de percorrer aquela zona de Valada de bicicleta e também gosto muito da gastronomia.

Do que gosto menos é das moscas. Há imensas moscas! E melgas, no verão… Mas é apenas isso. Nada que os cartões do Peso Pesado não resolvam. (solta uma gargalhada).

  • Em tempos apresentou um programa, o Olé, em que os concorrentes tinham de pegar toiros. Qual é a sua posição relativamente à tauromaquia? Gosta da Festa Brava?

Eu tenho uma admiração profunda pelos forcados, primeiro porque também tenho muitos amigos que estão no meio tauromáquico…

Quando me foi proposto vir a apresentar esse programa, não vi qualquer tipo de inconveniente.

De resto, acho que é uma forma de homenagear algo que é nosso, que é da nossa tradição e que eu aprecio ver.

 

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  • Quanto à experiência de estar a apresentar um programa com adolescentes, tem sido mais ou menos complicada do que se os concorrentes fossem adultos?

Fiz essa pergunta a mim mesma antes de começar o programa: “Como é que será, quais serão as grandes diferenças?”

Começámos o programa com um grupo de 18 adolescentes, entre os 16 e os 19 anos, (como já sabemos, uma das consequências da obesidade é o isolamento) e, de repente, tínhamos os 18 adolescentes, todos com o mesmo problema, e todos a sentirem-se iguais com uma vontade imensa de superar esta prova, de entrar nesta batalha, de deixar tudo para trás, os velhos hábitos e de realmente fazer uma mudança de vida.

Sinto que os jovens estão muito ávidos e que fazem disso a sua bandeira. Estão no início de vida, numa fase da vida que é muito bonita. É a adolescência, os amores, o sentirem-se bem por estarem mais magros, o que lhes dá imensa auto-estima e motivação para continuarem. Sinto aqui uma taxa de sucesso, talvez, superior à dos adultos. Sinto isso neles! Até porque tivemos agora a chamada repescagem, onde há duas competições, a que está ser travada dentro da herdade e há outra que é quando eles regressam a casa e continuam com acompanhamento médico, com programas de treino, com as mesmas equipas da nutrição… Tudo começa para eles quando vão para casa. A herdade, no fundo, dá-lhes ferramentas para que eles consigam chegar a casa e sobreviver dentro das novas normas para a vida deles. E senti, neste regresso de todos, que está a resultar: eles estão mais magros do que era esperado, no sentido de que continuam a travar essa batalha envolvendo as famílias. Há algo aqui neste programa que é quase uma missão, é mesmo uma missão, que é também darmos um certo apoio às famílias, porque, se a família não mudar os seus hábitos, estes adolescentes chegam a casa e, se calhar, não vai resultar.

E vemos os pais já a quererem alterar completamente aquilo que compram no supermercado, a alterarem um pouco de tudo.

No outro dia, até uma das mães dizia: “Agora o meu pão é de centeio, agora só compro manteiga light…”. Portanto, está tudo a ser alterado, o que é óptimo.

  • As crianças obesas são muitas vezes discriminadas nas escolas, sofrem bullying

O bullying é brutal nas escolas. É sempre o gordo, a gorda… E muitas vezes, da parte dos próprios professores… Há aqui um caso em que, na Educação Física, diziam: “Não te mexes, porque és gorda!”. É muito difícil motivar estas crianças para combater o bullying que sofrem e a auto-estima que perdem com esse bullying.

No fundo, este programa não é só para quem é obeso ver como é possível inverter uma doença, não. Este programa é também para abrir mentalidades de uma forma geral, é para se pensar o quão especiais todos somos e que devemos ser tratados de igual modo.

Eu gostei muito quando fui convidada para o fazer porque acho que é um bem público. Inicialmente, podia-se pensar que é um programa que vai pôr os adolescentes com tentações, perante eliminações, mas está a ser feito da maneira mais saudável possível: há uma linha amarela, há um peso perdido durante uma semana e os dois que perderem menos peso, ficam abaixo da linha amarela e voltam para casa. E voltam para casa de que forma? Com um desafio final. Esse desafio final é ligado ao desporto, ou tem a ver com o físico, ou tem a ver com o que eles aprenderam nas aulas de nutrição. O que é muito curioso, e diferente dos adultos, é eles andarem sempre de bloquinho na mão a tirarem apontamentos sobre as aulas de nutrição (sobre aprender a cozinhar, ou do que é que faz bem, ou sobre as sementes…).

Eles sabem mais do que eu! Há um deles que quer ser chefe de cozinha, ele tem andado sempre a cozinhar com todos os chefes que nós temos convidado, esteve no Creoula, no barco, foi ele que fez o jantar com a ajuda de outras amigas. Vejo-os motivados.

Eles estão aqui, no fundo, num campus, a estudar e a aprender a ser saudáveis e isto lá para casa também é importante.

Eu, por exemplo, não sabia como se fazia infusões, agora sou adepta das infusões. E vou experimentando e pondo tudo lá para dentro, do que tiver em casa. É canela, é fruta que já está mais velha, é aproveitar tudo. E eles também aprendem a aproveitar os alimentos e a fazer uma gestão do desperdício, o que é importante também.

  • Muitos destes jovens estão isolados também porque estão agarrados às novas tecnologias…

Há um deles que tem dois anos de tempo ininterrupto agarrado à consola. O André. O André quando chegou aqui era o mais silencioso, não se entregava muito ao espírito de equipa, funcionar como equipa, para ele, era estranho…

O certo é que, agora, o André está outra pessoa: consciencializou-se que tinha que mudar, começou a gostar de se empenhar no trabalho de equipa; começou a gostar de ajudar os outros e de ser ajudado. Houve aqui uma mudança tão grande que ele próprio é um pouco o rosto do isolamento que causa nos adolescentes e nas crianças todo esse mundo tecnológico dos jogos. E no fundo o que é que se perde aqui? Perde-se o ser-se criança, o andar no meio do campo, o subir às árvores, o fazer programas…

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Os miúdos gostam muito de trocar esse mundo pelo virtual. Muito facilmente dizem: “Ai não, agora não quero sair!”. Em termos de educação é uma parte muito complicada em que mães e pais têm de estar bastante atentos e saber negociar com eles outra vida.

  • Pegando na questão das novas tecnologias estarem a absorver a vida das crianças e no facto de a Bárbara ser uma pessoa ligada à cultura (já fez vários programas televisivos ligados a esta temática) parece-lhe que, hoje em dia, ainda há espaço e tempo para as crianças terem contacto com os livros, com a música ou com as artes?

Antigamente preocupávamo-nos muito com a televisão, com as horas que se passava a ver televisão, depois apareceram montes de canais… Na nossa altura, estávamos cingidos aos sábados de manhã, que é quando havia desenhos animados… De repente, há canais e canais de desenhos animados. Mas eu acho que é criando esse gosto por andar de bicicleta, fazer uns passeios, estar com amigos, para as crianças conviverem, brincarem, terem vida, por exemplo, no prédio onde moram… Eu tive. Vim viver para Lisboa tinha oito anos e brincava na rua.

  • Quase já não há crianças a brincarem na rua…

Quase já não há, mas eu acho que se consegue proporcionar isso. Agora, depende da capacidade do educador e também de abrir os olhos para esse lado tão bom que é o da rua e do ar-livre.

  • A Bárbara, como profissional da comunicação com uma experiência de cerca de 20 anos nesta área, como vê a evolução da comunicação social nestes últimos anos, especialmente com o aparecimento da Internet e das redes sociais, onde os cidadãos tomam, por vezes, o lugar dos jornalistas e dão notícias em primeira mão, antes mesmo dos órgãos de comunicação social? Qual lhe parece ser o futuro da comunicação social?

Isto está tudo a mudar imenso… Por exemplo, quando se diz que não há diversidade na televisão, que estamos com 4 canais generalistas que dão todos os mesmos tipos de programas, que dão todos o mesmo tipo de informação… Eu nunca vi tanta diversidade na televisão com a quantidade de canais que existem! Agora, é lógico que as pessoas façam as suas escolhas. Por exemplo, no meu núcleo de amigos eu pergunto: “Quem é que vê programas em directo?”. Ninguém! Eles vão todos às gravações para verem os programas. Portanto, ninguém vai estar à espera que, no domingo à noite, se vá sentar para ver determinado programa. Já não há isso! Os jornais… Por exemplo, o hábito de comprar os jornais… Está tudo na Internet… As notícias….

  •  Acha que os jornais vão acabar por desaparecer?

Eu acho que nunca vão desaparecer! Não tenho nada essa ideia… Mas o certo é que é diferente a forma como se vê televisão, o que existe na televisão, como se lêem os jornais, como se vêem as notícias e como se fica também com uma dispersão… Sabe-se muita coisa, mas em profundidade, nada! Quebra-se um bocadinho a memória das coisas…

  • Para finalizar, gostaríamos de saber se, quando acabar as gravações do programa Peso Pesado Teen, já tem algum projecto em vista. Pode desvendar-nos de que tipo de programa se trata?

Sim, tenho alguns, mas ainda é cedo para revelar.

No final deste domingo, depois das fotos e de um almoço maravilhoso, de “Cozido de Carnes Bravas à Ribatejana” no A Coudelaria, restaurante da herdade, na companhia da Bárbara e de parte da equipa de produção do programa, seguimos o caminho de volta, pela linha do horizonte, até à nossa Vila Franca de Xira, de barriga e coração cheios pela forma como fomos recebidos e tratados por esta grande senhora na arte de comunicar, chamada Bárbara Guimarães.

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Texto: Sofia Troni

Fotografia: Helder Bento

Gaibéu

O Gaibéu é um filho ilegítimo. Nasceu do amor à escrita, ao jornalismo e à cultura das gentes e da terra.

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