A voz de cada livro


Ana Cristina Silva regressa com A noite não é eterna
Vai buscar o perfil dos protagonistas à formação em psicoterapia, o ambiente à História e o enredo a uma conjugação entre as leituras e a sua imaginação. Agora gerou Nádia, uma mãe romena que vive a perda do filho, num registo intenso que marca este recente livro
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A voz de A noite não é eterna é a da dor de Nádia, uma mãe sofrida e, para a autora, até talvez seja “um livro violento para as mães”

Ana Cristina Silva ainda se lembra de, com seis anos, vir sozinha da sua casa, perto do antigo hospital de Vila Franca de Xira, até à velha Biblioteca no Largo da Câmara, com a mãe à janela a guardá-la até quase à porta. Nesta Primavera de chuva torrencial, em que o Tejo transbordou quase até à linha do comboio, passou pela primeira vez na ponte aérea até à Fábrica das Palavras – a actual Biblioteca Municipal – lugar de investigação que os seus livros exigem e onde, na véspera, apresentou o seu décimo primeiro livro A noite não é eterna aos seus conterrâneos.

Do romance autobiográfico que mostrou à amiga de longa data, Maria Albertina, e que nunca publicou, a autora, que ainda não se considera escritora, passou a publicar, a partir de 2002, romances com protagonistas de grande densidade psicológica e na sua maioria baseados em factos históricos.“Há romances que são uma ilustração daquilo que acontece numa determinada época, com todos os pormenores, e há outros que se debruçam mais naquilo que é intemporal, e é este tipo de questões que me interessam. Quando descrevo o massacre [no As Fogueiras de Inquisição] de 1506 dos judeus, é esse momento, mas os mecanismos que estão por detrás desse facto são os mesmos que estão no massacre do Ruanda ou noutros por parte dos Daesh agora… é a mesmíssima coisa”, sublinha.

Desde 2002, para ilustrar as histórias com factos históricos, o estudo e a pesquisa são essenciais, mas a autora fá-los de uma “forma económica por ter alguma experiência em investigação” que lhe permite reunir a informação relevante de cada leitura. Pelo contrário, Cartas Vermelhas (de 2011, seu preferido e seleccionado como Livro do Ano pelo jornal Expresso e finalista do Prémio Literário Fernando Namora) que tem como protagonista Carol, inspirada na vida de Carolina Loff da Fonseca, membro do Partido Comunista que se apaixona por um inspector da PIDE (polícia política do Estado Novo), exigiu-lhe tanto em investigação que a autora foi forçada a romancear mais no livro que se seguiu a este para descansar da parte documental.

“Às vezes o livro foge”
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“Também tenho que ir descobrindo o livro à medida que o vou escrevendo”

Situações como apaixonar-se por alguém com convicções políticas opostas ou perder um filho, matar o melhor amigo, estar no exílio, sofrer de violência doméstica, estão presentes nos livros de Ana Cristina Silva que orquestra estas tramas e personagens, porque aposta na intemporalidade e na repetição de certas circunstâncias da vida. Para as retratar monta a estrutura da história de acordo com um objectivo pré-definido, mas deixa o enredo seguir o seu próprio caminho. “Senão isto não teria graça nenhuma, também tenho que ir descobrindo o livro à medida que o vou escrevendo”, esclarece. E “às vezes o livro foge”, como aconteceu com Cartas Vermelhas que acabou por se centrar mais na “relação imaginária [da personagem principal] com a perda da filha do que na relação com o [inspector da] PIDE”.

Não relê os seus livros depois de publicados, por isso é-lhe estranho estar a reescrever A Mulher Transparente, sobre mulheres vítimas de violência doméstica, e cujo valor dos direitos de autor reverterá para a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV). Esta actualização do livro tem permitido o confronto da autora com a sua escrita anterior, já que apesar de “procurar manter sempre o espírito da história” e não sendo  “um livro novo”, esta edição “não tem uma frase igual”.

Aceitou reeditar o livro em parceria com a APAV, porque sabe que ele descreve bem o processo por que passam as mulheres vítimas de violência doméstica, por vezes ignorado mesmo pelos vizinhos. “Mesmo agora, com o caso da Bárbara Guimarães: a juíza quando lhe pergunta <então porque não foi fazer queixa mais cedo?>, se pergunta isto, é uma juíza que desconhece completamente as fases pelas quais passa uma mulher que sofre durante alguns anos um processo de violência doméstica!”

 

Conhecer o outro

A frase “parece que você me conhece!”, dita por uma senhora que foi espancada durante 14 anos e que lera A Mulher Transparente na altura da primeira edição, também contribuiu para Ana Cristina Silva aceitar a proposta de reedição do livro, pois essas palavras nunca lhe saíram da cabeça.

A formação enquanto leitora veio dos tempos em que ia três a quatro vezes à biblioteca e em que, ainda pequenina, começou a ler os livros de Os Cinco, passando depois para os policiais de Agatha Christie e, mais tarde, na adolescência, para os clássicos. Gostava de pegar num autor e ler tudo, “porque se percebe o percurso, a evolução e os fantasmas do autor”.

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“Temos de achar o tom certo para cada livro”

Ana Cristina Silva, ao fim de 11 livros e de 14 anos a publicá-los, ainda duvida da sua capacidade de escrita, porque vive na constante procura da voz de cada livro. “Das duas, uma: ou escrevemos sempre a mesma história, ou temos de achar o tom certo para cada livro, a voz de cada livro, que não pode ser igual”, sublinha a escritora.

 

 

 

 

Fotografias de Helder Bento

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Sofia T

Profissionalmente tem feito imensas coisas, no entanto, aqui só se encontrará a parte civilizada. Lê livros, conta histórias, estuda um pouco de tudo, o que lhe dá a capacidade de ver o mundo numa perspectiva alargada e de aprender depressa. Nunca pára de aprender. Vive numa insaciável busca por conhecimento e pela melhoria das suas aptidões. Gosta de fazer bem, privilegia sempre a competência e segura-a no seu horizonte. Se lhe perguntarem o que gosta mesmo de fazer, dirá que gosta de ler, escrever e de contar histórias. Por isso, escreve coisas em várias vozes. Eleva cada voz a um desafio que leva até ao fim e lhe serve de combustível. Escreve em plataformas Blogger, WordPress, papel ou na areia da praia. Conta histórias em vídeo, áudio, ou texto. E edita-as todas, porque, acredita, é na edição que está a arte. A quem interessar, nos espaços temporais que deixa em aberto, carregou fardos de palha, sacas de ração e carrinhos-de-mão cheios de estrume. Também trabalhou muitos cavalos e deu aulas de equitação, entre tantas outras coisas.

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