A dor

Maria Pereira

Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos.
Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos.
Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se.
Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo?
Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias
de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração.
Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.
Maria Pereira

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Naquela noite, fim de Novembro de 1967, choveu torrencialmente. Levantei-me várias vezes espreitando pelas vidraças, com o coração inquieto, mas tudo era escuro. A chuva caía, fortíssima, assustadora.

Pela madrugada, já se via o Tejo, cujas águas haviam subido tanto que as pequenas casinhas dos pastores e dos pescadores estavam submersas. Jesus, que aflição! E as pessoas que lá viviam?

Bem depressa chegou gente contando alguma coisa. Havia uma terrível inundação que acontecera pela madrugada.

De repente a ribeira de Quintas, com a força da água que subiu três metros em duas horas, rebentou a ponte e os muros, diques e valas e correu contra as casinhas pobres mal construídas, baixas e sem defesas, onde nem rede de esgotos existia.

A população morreu na sua maioria, dentro dessas casas afogadas em lama que entrou pelos telhados, fazendo ruir as paredes. Fui lá com os militares da Força Aérea da Ota, tentando dar uma ajuda no que fosse necessário. A empresa Gazcidla estava a montar uma cozinha de campanha e rapidamente havia bebidas quentes que ajudámos a servir aos sobreviventes. Faltava tudo! Chegaram estudantes das faculdades de Lisboa, ao princípio da tarde. Era preciso abrir as portas que tinham resistido e tirar as vítimas, já mortas. Era horrível, cada pessoa procurava os seus, eram poucos os vivos, não se sabia oa certo, mas falava-se em trezentos mortos. Famílias inteiras afogadas em lama e desespero.

Alguns estudantes tomavam notas. Outros, a maior parte, ajudavam a vestir os vivos com roupa seca, davam-lhes de comer, ajudavam-nos a encontrar os restos das suas coisas. No total foram cerca de novecentos mortos.

Em mim só falava a dor! Por ver tanta tristeza e morte. Ver o horror de quem perdeu toda a família, amigos e os parcos haveres. Ver a dor de tanta gente a quem ninguém tinha protegido, vivíamos numa ditadura sob alçada implacável da PIDE, e a indiferença e a incúria dos governantes.

Dois ou três dias depois, era preciso continuar, tratar dos vivos e enterrar os mortos, que os havia na Castanheira, em Quintas, em Alenquer, Alhandra e populações junto ao Tejo até Lisboa.

Foi organizado um grupo de jovens, mulheres como eu, para preparar os cadáveres, no cemitério de Vila Franca, para serem reconhecidos e levados pelos seus familiares. Os outros teriam a sua sepultura também.

O cemitério, nessa altura, há cinquenta anos, tinha uma entrada ampla, um pátio aí com 200 m2 de chão, onde se encontrava grande número de cadáveres, homens e mulheres e crianças na sua maioria muito sujos de lama, que fomos tirando com o auxílio de uma mangueira.

Deram-nos uma peça de pano turco para cortarmos em bocados com dois palmos para tapar o sexo dessas pessoas, tentando respeitar-lhes a intimidade que a morte tornava digna e trágica.

Conforme iam aparecendo as feições das pessoas, era os gritos que nos laceravam de dor!

– Ai o meu rico filho!

– Ai a minha querida mulher! Como foi isto? Não me deixes, leva-me contigo!

– Minha senhora, viu uma senhora de idade de olhos azuis? Baixinha, vestida de preto? Era a minha mãe.

– Venha comigo, os mais idosos estão deste lado.

– Querida mãe, querida mãe – e caiu de joelhos, junto a um corpo.

Já era noite quando acabámos. Íamos a sair, olhei pela última vez para aquele lugar, e percebi que cem anos que eu vivesse, não esqueceria nunca aquele chão, juncado de cadáveres, gelados e brancos como a neve, apenas com um trapito sobre o sexo.

Resta a dor. Que nos corta, nos asfixia.

Resta a dor, eterna!


(Consulte Hemeroteca Digital – As cheias de 1967: dossiê digital e lembre o que se escreveu na época sobre a tragédia.)

Fotografia: Helder Bento

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Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos.
Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos.
Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se.
Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo?
Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias
de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração.
Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.

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